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A bela frase tinha muito valor


Por Fernando Jorge

Tenho observado com mágoa que a palestra, um dos mais benéficos exercícios mentais, já não é cultivada como outrora, quando conversar a respeito de qualquer assunto era uma arte encantadora.
Antigamente, até o início do século XX, havia maior interesse pela troca de impressões, de ideias. Os esbanjadores de espírito pontificavam nas salas e nas mesas dos cafés, discorrendo sobre temas ecléticos. Eram ouvidos, tinham prestígio. Podiam falar quanto quisessem, sob a condição de serem pitorescos e agradáveis.

A qual motivo devemos atribuir a decadência da conversação? Antes de tudo, à época. O homem tornou-se mais apressado, mecânico. Descobriu que tempo é dinheiro. Daí viver numa perpétua vertigem, numa corrida insana, como se tivesse de tirar o pai da forca.

Se pretende fazer uma viagem à Europa, toma logo um avião a jato. Os transatlânticos vão se tornando obsoletos, do mesmo modo que os bondes ficaram, em comparação com os automóveis. Proclamam que isto é dinamismo, mas aos cinquenta ou sessenta anos, ultra-esgotados, atingem a idade do enfarte.

Depois de um dia movimentadíssimo, nos escritórios repletos de máquinas de todos os tipos, o pobre cidadão regressa à casa esbofado, tendo preguiça até de falar. Tecer argumentos sutis em torno de um livro, de um caso em evidência? Oh, não, seria muito cansativo! Bastam uns comentários ligeiros... O jornal se incumbe de dar opinião. Para que conversar se podemos nos distrair folheando uma revista, assistindo a um programa de cinema ou de televisão? Eis porque a arte de palestrar é uma arte moribunda. O século vinte a desprezou para conceder atenção ao industrialismo, achando que uma reunião de economistas é mais útil que um diálogo a propósito da estética de Ruskin.

Ignora-se, na atualidade, a existência de causeurs inebriantes, idênticos a D’Annunzio, a quem certa mulher confessou, num irrefreável transporte de entusiasmo:

– Às vezes, quando falas e te abandonas às tuas palavras, tens a boca de um fauno e o olhar de um semideus. 
Aquele que quiser ser um artista da palavra oral deve possuir uma fina sensibilidade. Abordará assuntos variados, à semelhança de uma abelha que esvoaça de corola em corola, sugando o néctar de todas as flores. É necessário colocar de lado, porém, a indecência e a asquerosidade.

Amolde-se o tema às pessoas e às circunstâncias. A um poeta não falemos de finanças, a um financista não falemos de poesia, embora, excepcionalmente, o primeiro possa excursionar pela seara do segundo, ou vice-versa.

Outra falta de tato é sustentar discussões acerca de temas melindrosos, como política, por exemplo.
 Lord Chesterfield aconselhava ao seu filho, numa série de cartas, a não contar histórias cheias de longos rodeios, pois elas fatigam os ouvintes, cortando de maneira irremediável toda a possibilidade futura de cativá-los.

A criança que uma vez se queimou, tem medo de fogo. O ouvinte maçado, evita o maçador. Todavia, que adianta escrever estas considerações? Hoje, a conversação agoniza. Quase ninguém possui verve para seduzir um auditório, As palestras, em geral, mostram-se insossas e tediosas. 

Arrastam-se moles, aos trancos e barrancos, machucando seriamente a estropiada gramática. Não se percebe a cintilação de uma frase bem feita, o lampejo ofuscante de um paradoxo. Vemos apenas a divagação inconsistente, a narrativa seca e grosseira, o desprezo quase absoluto pelos elementos indispensáveis da cultura.

Ah, os áureos tempos da arte de palestrar! Uma bela frase tinha tanto valor quanto o mais fúlgido dos rubis, um mot pour rire era admirado, comentado, percorria os salões, atravessava as fronteiras, ia despertar, nas cortes, o bom humor dos soberanos, que sabiam dar apreço às ironias satânicas de um Voltaire e aos paradoxos coruscantes de um Oscar Wilde...

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