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sexta-feira, 24 de março de 2017

Saiba o que o Grupo Estado ganha com o fim da Rádio Estadão



Muito se fala por aí sobre o fim da Rádio Estadão. É possível que todas as análises estejam certas, inclusive aquelas que dizem que se trata de uma derrota do Grupo Estado e de seus dirigentes que não souberam gerir os negócios na área radiofônica. Esta visão é compartilhada por muita gente séria que conhece o mercado. Entretanto é bom sempre se jogar luz ao que deixou de ser dito: se tivesse sido tão ruim, o grupo Estado teria “fechado” sua principal mídia eletrônica tão facilmente assim?

Vamos por partes. É preciso se fazer um rápido retrospecto da “virtual” estação de rádio (este conceito sob aspas explicarei mais adiante). A Rádio Eldorado AM foi inaugurada em janeiro de 1958, com muita pompa e circunstância, como era costume na época. O Brasil ainda estava vivendo na “Era de Ouro” do Rádio, dos dourados “Anos JK”, uma época de progresso e de certa opulência na economia.

Em seu livro “Eldorado, a Rádio Cidadã”, o ex-diretor da emissora João Lara Mesquita informa que depois de um certo encantamento provocado pela novidade do veículo a Eldorado foi esquecida pela direção do jornal. Ele relata também que, ao longo dos anos 1960, Luís Carlos Mesquita, seu tio e um dos diretores do jornal – revitalizou a sua programação com relativo sucesso. Entretanto, em 1972, seu “Tio Carlão” veio a falecer fazendo com que a rádio fosse abandonada até o início da década seguinte quando João Lara fora convidado a assumir a direção daquilo que os membros de sua família – controladora das empresas do Grupo Estado – chamavam de “estatalzinha” porque se gastava muito com ela e não se faturava nada.

Ao longo de pouco mais de vinte anos, João Lara Mesquita conta que teve uma luta diária para manter as rádios Eldorado como “players” do mercado radiofônico. Ele revela que, apesar do sucesso comercial que conseguira com a FM, jamais teve o mesmo êxito com a estação de 700 KHz, muito embora avalie que tenha ajudado a revolucionar e renovar o radiojornalismo brasileiro com ele.

Esta sina continuou mesmo depois de sua saída, em 2003, quando um grupo de credores assumiu o controle de todas as empresas. A Rádio Eldorado AM sofria com índices de audiência cada vez mais microscópicos e uma qualidade de transmissão a cada dia pior. Nem a tão festejada parceria com a ESPN que, segundo se comentava na época, rendia cerca de 200 mil reais para a emissora de televisão da Disney especializada em esportes, a cinqüentenária estação de ondas médias não conseguia mais decolar. Depois de tentar voltar sozinha aos velhos tempos de jornalismo 24 horas, a Eldorado AM – agora rebatizada de “Rádio Estadão” – arrendou sua frequência para a Nossa Rádio, pertencente à Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares.

O arrendamento foi uma bela solução para o grupo Estado, que finalmente poderia faturar com a rádio AM e poder possivelmente fazer caixa para implantar sua segunda emissora de FM na faixa estendida, além de diminuir o passivo das empresas de rádio.

Porém, a antiga Eldorado FM – agora transformada em “Rádio Estadão FM” – continuou a transmitir a sua programação com audiência e faturamentos muito baixos, ao passo que a Eldorado FM – “a verdadeira” – conseguia manter uma boa receita de publicidade em “parceria” com a Fundação Brasil 2000, senhoria de sua atual “casa”, os 107,3 MHz.

Pode parecer “non sense”, mas a decisão que tomaram, do ponto de vista “empresarial” foi essa mesmo: arrendar o próprio canal de FM, fazendo mais caixa e continua com a tal “parceira de conteúdo” com a Fundação e tentar acomodar parte do jornalismo que era produzido na Rádio Estadão.

Desta maneira fica claro que o grupo Estado não está perdendo nada com essas mudanças. Até mesmo o patrocínio da Motorola que conseguiram para o quadro “Blitz Estadão” foi devidamente deslocado para outra atividade dentro do jornal – no caso, uma suposta exposição fotográfica composta por imagens feitas por fotógrafos do jornal, usando supostamente o equipamento do patrocinador. O uso dessa máquina na produção do conteúdo da extinta atração radiofônica também era o mote para o patrocínio: demonstrar as qualidades do novo modelo de celular que tira fotos com altíssima resolução e coisas afins. Conveniente, não?

Só não foi conveniente os profissionais de rádio que, a exemplo de Marcel Naves – produtor e apresentador da “Blitz Estadão” – perderam seus trabalhos dentro do Grupo Estado e para os ouvintes que, mais uma vez, nem ao menos foram avisados das mudanças que afetariam o seu modo de ouvir Rádio. Lamentável.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Novas perspectivas para a Estadão e para ESPN



Para quem chegou de Marte ou Saturno depois do Réveillon e não estava sabendo do que acontecia aqui na Terra, A ESPN encerrou o contrato de "parceria de conteúdo" com agora chamada Rádio Estadão, ex-Rádio Eldorado.

A emissora pertencente ao grupo Estado encerrou a dobradinha no dia 1°de Janeiro, passando-se a chamar apenas Rádio Estadão. O que para muitos "fãs do esporte" - é como a ESPN chama seus ouvintes/telespectadores - pode ter sido um grande baque, para os ouvintes "originais" da antiga Rádio Eldorado talvez tenha sido um alívio.

Ao longo de seus recém-completados 55 anos de vida, a Eldorado nunca primou em fazer programas de esportes baseado no futebol. Com a chegada da ESPN, ela botou pra escanteio toda uma história de cobertura de esportes considerados "das elites" - Iatismo, motociclismo, hipismo, automobilismo, etc. - iniciada nos anos 80 com seu ex-diretor João Lara Mesquita.

Na época, fazia sentido. Afinal, como conta o próprio João Lara em seu livro "A Rádio Cidadã" (Editora Terceiro Nome - 2008) a Eldorado era a emissora ouvida maciçamente pela classe média alta, a tal ponto que "No final dos anos 80 a programação esportiva já era registrada da Eldorado FM...." (Nota da Redação: A antiga Eldorado FM, 92,9 MHz transmite hoje em cadeia a programação da Rádio Estadão AM. No entanto, a referida emissora funciona agora nos 107,3 MHz, numa parceria com a Fundação Brasil 2000) ....."Éramos de tal forma envolvidos com os esportes diferenciados, pelas coberturas que fazíamos e pelo apoio que dávamos, que acabamos ficando amigos de André Azevedo e Klever Kolberg - os primeiros brasileiros a participar do "rallye da morte" - o Paris Dacar".

Além de divulgar, cobrir e apoiar os esportes que promovia, a Eldorado também participava das disputas esportivas, através de seu diretor que, além competir, passava boletins diários para as duas emissoras, sob a alcunha de Jota Mosk (mosk significa Mesquita, em inglês). Em um segundo momento a Eldorado, numa ideia genial, começou a transmitir boletins - gravados e ao vivo - dos competidores que a rádio apoiava, direto do local das provas. A ideia era, não só informar, como também passar as impressões pessoais dos atletas, pilotos e velejadores, dando uma nova visão ao fato jornalístico.

É bom notar que tudo isso foi feito entre os anos 80 e 90, época em que os recursos técnicos e financeiros eram mais escassos do que hoje. Porém, deixa claro João Lara, a audiência e o prestígio que a emissora alcançou foram inigualáveis mesmo entre as outras emissoras.

Esta observação do ex-comandante da emissora é pertinente. A escolha deste tipo de cobertura esportiva não foi "a esmo", "por acaso", "no chute". A ideia partiu da percepção de que havia um público diferenciado, que apreciava música de uma qualidade superior ao que era oferecido pelo "establishment" e que não era tão afeito a esportes populares, leia-se futebol. Não raro, boa parte desta audiência não só acompanhava como que por vezes praticava estes esportes, que eram considerados de alto custo financeiro, em comparação ao futebol, por exemplo. Os então gestores da Rádio Eldorado entenderam a situação.

Não só investiram em esporte, como também foram fundo na música, a ponto de criarem o "Prêmio Eldorado de Música", reunindo, primeiro, descobrindo os novos talentos da música erudita, depois, revelando as jovens promessas da música popular instrumental do Brasil. Tal tipo de premiação, com esta qualidade e visão nunca mais se repetira no meio radiofônico, exceto aqueles promovidos pela TV Cultura, em parceria com as Rádios Cultura AM e FM.

Enfim, a Rádio Eldorado dos anos 80 e 90 soube ouvir "a voz roucas das ruas" - como diria um certo ex-presidente da República - e atendeu a demanda da audiência, sem sair um milímetro que fosse da sua linha de programação ou orientação "editorial".

Os tempos mudaram, a revolução tecnológica foi enorme e os meios de comunicação tiveram de mudar de postura, da mesma forma que outros setores da economia. Em algum momento dos anos 2000, após a saída de João Lara e quase toda a família Mesquita do comando do Grupo Estado, os novos diretores das Rádios Eldorado AM e FM decidiram que era hora delas disputarem o filão da grande audiência dos programas e das transmissões esportivas, inclusive na faixa do FM para onde as AMs importantes estavam migrando.

Inicialmente fizeram uma tímida parceria com esta mesma ESPN, da qual agora se divorcia. À época o acordo se resumia basicamente à transmissão dos jogos a que a ESPN tivesse acesso. Posteriormente, a então Brasil 2000 FM - que hoje abriga a Eldorado FM - entrou na parceria, como mera retransmissora nesta faixa de onda em alguns horários. Como a iniciativa dera muito certo, ampliou-se a parceria e a ESPN começou a dividir a programação com a agora chamada Rádio Estadão quase ao meio.
Para a ESPN, a parceria foi muito frutífera. A emissora especializada em esportes pertencente ao Grupo Disney ganhou visibilidade no mercado radiofônico brasileiro onde ela não tinha participação alguma. Entretanto, os índices de audiência não refletiram o prestígio e a credibilidade que a parceria proporcionou aos dois grupos e a audiência não subiu, segundo os institutos de pesquisa.

Esta coluna apurou que o acordo entre as partes era um tanto esquisito para uma parceria do que quer que seja: a ESPN colocaria pelo menos 5 horas de programação diárias na emissora e receberia cerca de 250 mil reais por mês da Rádio Estadão. A parte comercial ficaria por conta do Grupo Estado. É de se supor que neste tipo de acordo é, a empresa que está entrando não pague nem recebe nada da emissora. Porém, se vier a faturar com venda de espaço publicitário em seus programas, o faturamento é dividido com a rádio.

Novas perspectivas para os ex-parceiros - De qualquer maneira, se era assim ou não, a parceria já está desfeita. A ESPN pretende agora "arrendar" ou comprar uma emissora de FM em São Paulo, o que não será tarefa fácil. Talvez nem consiga. É bom o "fã do esporte" não se iludir. Uma saída visível seria a ESPN ocupar a frequência da Rádio Disney. Esta concessão, que um dia pertenceu ao falido Grupo Bloch (Rádio e TV Manchete), agora fora arrendada por seus donos atuais para a própria Disney/ESPN.

Ainda resta à ESPN a alternativa de montar uma rádio em seu próprio portal. Apesar do descaso e a falta de interesse do mercado publicitário por esta mídia que cresce a olhos vistos, uma web radio é a opção perfeita para uma emissora de grande prestígio como esta. Livre das limitações impostas pelo sistema de concessões governamentais, das leis antiquadas que ainda regem a radiodifusão e da falta de canais de FM na cidade de São Paulo - o maior mercado do país - a emissora esportiva terá mais liberdade de ação, poderá ousar mais em seus programas e gastará muito menos com parte operacional. Ouvintes/internautas e anunciantes sério que quererão apostar na nova mídia, com certeza, não lhe faltará.

Para a “nova” Rádio Estadão, o futuro não será incerto. Sem as “muletas” da ESPN, depende apenas dela para voltar ao tempo em que era uma das rádios mais respeitadas e qualificadas de São Paulo e do Brasil.

O dia 1º de janeiro inaugurou um livro com todas as páginas em branco, cuja equipe da emissora e a direção do Grupo Estado terão de reescrever a história da Eldorado/Estadão. Apoio de um grande grupo não lhes faltará. Criatividade e entusiasmo de seus jornalistas e radialistas, também não. As lições do passado estão aí para serem aprendidas e revisitadas, se necessário for. Olhar para o futuro também não é problema para a Rádio Estadão. Acertando o rumo da nau, os ouvintes que algum dia se desgarraram da nave mãe, voltarão. E novas audiências virão juntamente com os anunciantes. E isto é fato.