Inspirado por dois artigos do crítico André Barcinski e baseado em recentes experiências particulares como músico e produtor de meus próprios trabalhos, decidi partilhar algumas confabulações a respeito do mercado de música.
O assunto sempre desperta reações intensas, muita futurologia e desabafos. Os referidos artigos citam a constatada derrocada da indústria fonográfica, e de forma surpreendente e fundamentada, jogam pá de cal na falsa ideia de que a internet traria grandes benefícios para músicos e bandas (independentes e do mainstream).
O alicerce da argumentação reside em dados sobre o mercado fonográfico nos EUA: a fatia de 1% dos músicos mais ricos em 1982 concentrava menos renda do que os 1% mais ricos em 2015, apenas 6,26% de todos os discos lançados em 2010 venderam mais do que 1.000 (mil!) cópias, 29 artistas diferentes chegaram ao topo das paradas em 1986 e apenas 6 artistas diferentes chegaram ao mesmo topo entre 2008 e 2012. Ou seja, a música diminuiu de tamanho e se concentrou.
E isso é mais alarmante ao constatarmos a quantidade enorme e quase incontável de discos lançados por ano no mundo. Uma prova simples disso é a própria seção de lista de melhores discos do ano realizados aqui pela Consultoria do Rock – os colegas do site não fizeram suas escolhas a partir de terem ouvido mais ou menos o mesmo conjunto de discos, pelo simples fato de que cada um foi atrás de um estrato definido de estilos e estéticas que mais lhe interessam. Outros dois fatos alarmantes – a população da Terra cresce (hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas) e grande parte dessa população tem acessos a eletroeletrônicos portáteis aptos a ouvirem música e conectados à Internet.
Ou seja, estamos diante de uma concentração sem precedentes da pirâmide musical, quando deveríamos estar contemplando uma época absolutamente plural, diversificada e sofisticada em termos de música. Há música em abundância sendo feita em todas as partes do mundo e há um mercado potencialmente consumidor gigantesco que poderia ter acesso a ela. Mas o que vemos é um mercado musical concentrado em pouquíssimos nomes de abrangência global e todo o restante absolutamente fragmentado.