Esta semana o mundo radiofônico foi surpreendido com esta bizonha novidade: depois de trinta anos, o radialista Antônio Carlos vai ser demitido para ser substituído pelo ator "global" Otaviano Costa, nas manhãs da Rádio Globo do Rio. Trata-se de uma estratégia da nova diretoria do Sistema Globo de Rádio que considera a audiência da emissora "velha" e quer atrair um público supostamente "jovem"- seja lá o que isso signifique para eles - visando a migração de suas emissoras AM para o FM, sobretudo na capital paulista, onde a audiência vem caindo brutalmente nas últimas décadas.
Para isso, estão "importando" da TV Globo o máximo de atrações e artistas possíveis, como se fora a fórmula certa para afastar a crise e como se a culpa da "derrota" fosse dos profissionais radialistas que lá estão ou estiveram até pouco tempo atrás. De troco, ainda vão economizar na folha de pagamento pois, imagina-se que os colegas da televisão que também atuarem na "latinha" não receberão outro salário ou adicional para fazê-lo, como costuma ser habitual em casos semelhantes.
Vai dar certo essa tentativa bizarra de recuperar a audiência das rádios Globo? Meu primeiro impulso seria o de dizer "duvi-de-o-dó", mas a boa análise recomenda que se vá "devagar com o andor porque o santo é de barro". É muito corriqueiro, além de óbvio, que profissionais do rádio acabem migrando para a televisão, atrás de mais projeção, reconhecimento e ganhos financeiros melhores. É até o caso de alguns radialistas da TV Globo, que o SGR pretende trazer de volta ao Rádio. Entretanto, o caminho inverso é muito mais raro de acontecer e de dar certo.
Argentino de Niterói conquista o Rádio - Um dos pouquíssimos casos de que eu me lembre é o de Ricardo Boechat, vencedor de um prêmio APCA no ano passado, na categoria Rádio. Este simpático senhor começou no jornalismo impresso diário como assistente de Ibrahim Sued, folclórico e festajado colunista social do Rio de Janeiro, que acabou se aventurando na tela da Globo nos anos setenta, se tornando um dos seus mais engraçados e conhecidos personagens, sendo satirizados pelos mais talentosos humoristas da TV daquela época.
Após a morte de Sued, Boechat assumiu a sua coluna, porém com outra denominação. Ele fez seu nome ao longo de duas décadas,tornando-se um dos maiores colunistas políticos deste país. Por conta disso, recebeu o convite da própria TV Globo para atuar em seu time de articulistas. Quando fora saiu da Globo e do jornal "O Globo", do Rio de Janeiro, onde mantinha sua coluna, ele foi contratado pela Band TV para apresentar a edição local de seu principal telejornal.
Com a saída do Carlos Nascimento - outro que também começou no rádio - para o SBT, Ricardo Boechat assume seu lugar de apresentador não só no "Jornal da Band", como o de âncora no principal horário da recém-inaugurada Band News FM. Esse argentino de nascimento, com alma de carioca, criado em Niterói agradou em cheio o público "adulto" da nova rede de emissoras, que substituíra outras estações de rádio "jovens" nas mesmas posições do "dial".
Com seu jeito simples e alegre, porém sério ao tratar de assuntos tão áridos como economia e política, Boechat e seus colegas de horário - muitos deles vindo do jornalismo impresso e até da internet, têm conquistado um grande número de pessoas, em um horário em que a concorrência disputa a audiência quase que "cabeça à cabeça" no segmento jornalístico nas principais praças do país. Entretanto é bom lembrar que o âncora matinal da Band News FM teve de se adaptar à linguagem radiofônica para ser tão bem sucedido. Apesar de operar em rede, Boechat não sofre com o rigor do tempo imposto aos jornalísticos da TV, por exemplo. No Rádio, ele pode ficar mais solto, jogar um pouco de conversa fora, brincar um pouco mais, mandar e enviar recados de ouvintes e até analisar os principais fatos do dia com mais profundidade que a "telinha" quase nunca permite.
Amigas invisíveis que (quase) ninguém ouviu - Se o veterano jornalista é um exemplo raríssimo da migração da televisão para o rádio, há outras dezenas de exemplos que quase que confirmam este certo sentimento de que a nova empreitada da Rádio Globo poderá errado. O mais patente e recente deles é o do programas "Amigas Invisíveis" na própria Rádio Globo. Liderado pelo vencedor de uma das edições do "reality show" Big Brother Brasil, Jean Willis, hoje deputado federal pelo Rio de Janeiro, a atração pretendia "emular" um programa feminino vespertino da tevê, nas ondas da Globo. É claro que não deu certo porque o "público da rádio" talvez não tivesse entendido a "proposta", assim como os anunciantes. Ficou menos de um ano no ar, salvo engano.
A minha intuição, baseada em um certo inconsciente coletivo, aponta na direção de que a nova jogada do Sistema Globo de Rádio tenha tudo para dar errado porque é baseada em uma aparente falta de planejamento estratégico, no evidente despreparo de seus gestores e um claríssimo sinal de desespero por causa da queda da audiência e do faturamento. Porém, sou obrigado a deixar uma margem para a dúvida, que reside no fato de eles terem informações de que transformar a Rádio Globo numa mera versão de áudio malfeita da televisão se produzidas por pessoas que realmente saibam o que estão fazendo e que tenham enxergado algo que os melhores profissionais do mercado ainda não vislumbraram.
Ainda que conte com profissionais de tevê egressos do próprio rádio - como é o caso de muita gente na Rede Globo, é necessário saber se eles estão atualizados sobre o que ocorre neste mercado. E ainda há uma agravante: o meio radiofônico do Rio é diferente do de São Paulo para ficar apenas em dois exemplos. Enquanto as estações cariocas estão praticamente entregues a diversas denominações religiosas interessadas apenas em fazer seu proselitismo na mídia, em detrimento de desenvolver o veículo que parasitam, as "co-irmãs" paulistas tem um pouco mais de sorte. Deste lado da Via Dutra, o mercado está um pouco menos amador. A tal famigerada segmentação atingiu um estágio muito melhor do que nas décadas anteriores. Mesmo em época de crise, é possível se explorar nichos de mercados, bastando apenas adaptar a sua programação a um perfil de público que possa atrair os anunciantes que se adequem a ele. É óbvio que isto dá muito trabalho, mas quem não seguir a "Lei do Mínimo Esforço" e arrendar seu sinal 24 horas do dia para as mesmas denominações religiosas que abundam no espaço hertziano carioca, pode até conseguir algum êxito e até mesmo sobreviver com um pouco de sorte.
Mas cá entre nós, depois de tudo que foi exaustivamente explanado aqui, ainda prefiro continuar seguindo o meu "feeling" e de gente que entende mais de rádio do que eu. E se pudesse vender um conselho aos gestores do Sistema Globo de Rádio, eu simplesmente diria: "Meus amigos, esqueçam esse projeto maluco, sem pé nem cabeça, feito nas coxas. Alguma coisa me diz que isso não vai acabar bem. E não vai ser pra mim." E que o diabo seja surdo.
========================
Antônio Carlos é substituído por Otaviano Costa e deixa a Rádio Globo
Por Léo Dias - Portal O Dia
A partir de 16 de maio, a dona de casa vai ouvir outra voz nas manhãs da Rádio Globo. É que o querido radialista Antônio Carlos vai deixar a emissora, que colocará Otaviano Costa em seu lugar. A coluna conversou ontem à tarde com Antônio Carlos. “A diretoria da rádio chegou à conclusão de que precisa rejuvenescer os ouvintes. Então vão entrar novos locutores”, explicou.
O ‘Show do Antônio Carlos’ é líder no horário da manhã há muito anos. “Eu tenho audiência e um bom faturamento, mas isso não é suficiente. Me ofereceram para ficar aos sábado e domingos, mas eu não quero. Estou velho e gosto de ficar com a minha família no fim de semana”, disse.
Hoje, o radialista vai se reunir com a direção da Tupi —principal concorrente da Rádio Globo —para ver se acerta sua ida para lá. “Eu quero ficar, mas não sou o dono da Rádio Globo”, desabafou Antônio Carlos.
A ida do profissional para a Tupi pode salvar a emissora que anda mal das pernas e com diversos processos trabalhistas. É que a agência que faz a propaganda dos supermercados Guanabara é muito próxima a Antônio Carlos. E ele indo para a concorrência, leva o anunciante consigo. “Claro que o Guanabara vai comigo. Somos parceiros de uma vida. Mas isso não significa deixar de anunciar na Rádio Globo. Somos profissionais e queremos atingir esse público”, garantiu ele, que tem contrato até agosto com a emissora da família Marinho.
Além de Otaviano Costa, quem está cotada para ir para a Rádio Globo é Mariana Godoy, que entraria na vaga de Roberto Canázio. Tudo para conquistar jovens ouvintes.
A coluna tentou falar com o diretor da rádio, Marcelo Soares, mas ele não retornou às nossas ligações até o fechamento desta edição.
======================================
Não existe crise?
Por Anderson Cheni, do blog do Cheni no Campo
Em outubro do ano passado, após várias demissões ocorrerem na Rádio Globo e os funcionários da Super Tupi recorrerem a greve para receber os salários atrasados o comunicador foi no mínimo infeliz ao comentar em seu programa que: "Não existe crise" e que todos tinha que arregaçar as mangas e trabalhar.
Esse comentário causou indignação do repórter e seu companheiro Gelcio Cunha que não concordou e falou justamente do momento delicado no meio rádio (veja vídeo abaixo).
Agora por ironia do destino o comunicador foi dispensado da emissora, já que não quer com o "prêmio de consolação" que seria as manhãs de sábado e domingo. A "troca" forçada deve ser bem vinda ao rádio carioca. A renovação da rádio Globo está só começando e muitas outras mudanças de impacto vão ocorrer nos próximos meses. Lembrando que o canal analógico da tv em São Paulo será encerrado dia 29.
A partir dessa data esses canais serão usados para migração do rádio am em fm. Segundo planejamento do Ministérios das Comunicações a migração em São Paulo vai ocorrer no segundo semestre. Essa deve ser a estratégia das Organizações Globo, rejuvenescer a sua programação com nomes conhecidos da tv para emplacar em FM e obter novos ouvintes e patrocinadores.