Pular para o conteúdo principal

Concessões de TV ou capitanias hereditárias?

Pedro Estevam Serrano - Observatório da Imprensa/
19.06.2007


A decisão do presidente venezuelano Hugo Chávez de não autorizar a renovação da concessão da RCTV teve repercussões negativas em várias partes do mundo, inclusive no âmbito do legislativo brasileiro. Como se sabe, o Senado aprovou uma moção contrária à atitude de Chávez e recebeu em resposta a alcunha de "papagaio dos Estados Unidos", ocasionando grande mal-estar nas relações entre os dois países.

Sem entrar no mérito do acerto ou do erro da atitude do presidente venezuelano, a questão traz a oportunidade de discutir a situação das concessões de rádio e TV no Brasil. A nosso ver, é urgente a necessidade de aprovação de emendas constitucionais com vistas à modificação do regime jurídico de nossas concessões de radiodifusão por som e por som e imagem (TV), por tratar-se de um modelo de apropriação privada indevida e antiética de serviços públicos. Explico-me.

As concessões de serviço público se caracterizam como contratos administrativos pelos quais o Estado transfere à iniciativa privada a execução dos referidos serviços, mantendo, contudo, sua titularidade. O concessionário é, assim, mero executor de um serviço cujo "dono" permanece sendo o Estado. Em tais contratos vige regime jurídico absolutamente diverso das condições usuais nos contratos privados, razão pela qual cláusulas destes contratos são denominadas "exorbitantes", por permitirem que o Estado, a qualquer tempo, possa romper o contrato por decisão unilateral da administração, respeitando-se, porém, o direito de o concessionário ser indenizado pelos danos e perdas que sofrer.

Renovação automática

Isto ocorre porque o Estado-Administração representa o interesse coletivo, enquanto o particular (concessionário) cuida apenas de seu interesse individual. Por razões óbvias, nossa Constituição privilegia o interesse coletivo, outorgando-lhe prerrogativas de autoridade no âmbito contratual, mas, em momento algum a ordem jurídica confere ao Estado poder de confisco, de se apropriar compulsoriamente de direitos privados sem justa indenização.

Apenas um ambiente das atividades públicas põe-se como exceção a este regime jurídico, em razão de dispositivos discretamente aprovados pela Constituinte de 1988: as concessões de rádio e TV.

Provavelmente por uma conjunção de lobby de empresas de telecomunicações agregado ao fato de que muitos constituintes eram proprietários diretos ou indiretos de empresas de rádio e/ou TV, o artigo 223 da Carta Magna estabelece regime de concessão de serviço público absolutamente diverso dos demais serviços públicos concedidos no que tange aos aludidos serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens (rádio e TV).

Por esse artigo constitucional, as concessões de rádio e TV só podem ser extintas, antes de vencido seu prazo, por decisão judicial, enquanto todas as demais concessões públicas podem sê-lo por decisão administrativa. E mais: tais concessões são quase de renovação automática, contratos eternos e intangíveis, pois só com aprovação de dois quintos do Congresso Nacional deixariam de ser renovadas.

"Macaco, olha o teu rabo..."

Se os então constituintes – muitos ainda congressistas – tivessem observado valores democráticos em sua decisão, haveriam de estipular para a renovação da concessão de rádio ou TV o mesmo que para qualquer outro contrato público com particular: a necessidade de fazê-lo por licitação aberta a todos os interessados.

Estabeleceu-se aí inegável imoralidade no âmbito de nossa Carta Magna, uma nódoa em nossa Constituição cidadã. Concessões de serviço público se transformaram em capitanias hereditárias de famílias notórias ou de políticos. Tal situação nada tem de republicana, remetendo à forma como a aristocracia do Estado imperial se apropriava dos bens e serviços públicos.

Assim, é de se estranhar que o Congresso Nacional aprove moção contra a não renovação de concessão de TV venezuelana e, ao mesmo tempo, deixe de adotar medidas que são de sua competência com vistas à alteração de nossa Constituição e ao restabelecimento em seus dispositivos relativos às telecomunicações dos valores republicanos e isonômicos que deveriam norteá-los.

É possível que nossos congressistas não tenham disposição para tanto, pois muitos deles são donos diretos ou indiretos de empresas concessionárias dos referidos serviços. Legislar contra os próprios interesses econômicos e empresariais é algo inimaginável nesse reduto, mesmo que isso se faça necessário para o restabelecimento de um mínimo de ética. Antes de apontar o dedo para a Venezuela, nossos congressistas deveriam agir como recomenda a sabedoria popular: "Macaco, olha o teu rabo..."

* Pedro Estevam Serrano é professor de Direito Constitucional da PUC-SP

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Difusora e Excelsior

Estava eu "fuçando" no Google sobre rádios e locutores quando encontrei esse blog interessante. Como já estou na faixa etária dos 50, relembro com muita saudade as Rádios Difusora e Excelsior. Aí eu pergunto: por onde andam as vozes, que me faziam suspirar, de Antonio Celso e Dárcio Arruda? Li semanas atrás sobre o saudoso Henrique Régis, outra voz maravilhosa!Portanto,se alguém souber sobre o paradeiro deles, me contem. A última vez que ouvi falar do Antonio Celso é que ele estava na Voz da América. Abraços!!! Vânia Amélia Dellapasi vdellapasi@yahoo.com.br ----------------------------- Cara Vânia, Dárcio Arruda é diretor de jornalismo e comanda um talk show diário na Rede TV Mais de Santo André. Não sei por onde andam os demais. Se alguém souber, mande um sinal de fumaça para cá. Um abraço, Vânia e continue na nossa sintonia.

Os Melôs da Rádio Mundial

Extraído da extinta comunidade do Big Boy no Orkut. Leia e comente: Já que o assunto é também a Rádio Mundial, que tal relembrarmos as "melôs" que esta rádio inventava (por que não dizer inovava)? Melô DO POPEYE - Frank Smith - Double Dutch Bus Melô DA PORRADA - Bachman Turner Overdrive - Hold Back The Water Melô DO BÊBADO - Bob James - Sign Of The Times Melô DA XOXOTA - Crown Heights Affair - Sure Shot Melô DA MAÇÃ - The Trammps - Zing Went The Strings Of My Heart Melô DO BANJO - Al Downing - I'll Be Holding On Melô DO PULADINHO - George McCrae - Rock Your Baby Melô DA ASA - Randy Brown - I'd Rather Hurt Myself Melô DO BOMBEIRO - Jim Diamond - I Should Have Known Better Melô DAS MENINAS - Debbie Jacobs - Hot Hot Melô DA MARCHA À RE - Gap Band - Oops Upside Your Head Melô DO TARZAN - Baltimora - Tarzan Boy Melô DA CONCEIÇÃO - Love De Luxe - Here Comes That Sound Melô DO BROWN - Tom Tom Club - Genius of Love Melô DA BANDINHA - Jimmy Ross - First True Love Af...

Vamos resgatar a Rádio Cultura da Belo Horizonte

Amigos da Rádio Base É uma vergonha o que está acontecendo com uma das emissoras mais tradicionais de Belo Horizonte. Desde que a Igreja Católica adquiriu a Rdio Cultura AM 830 KHz, a mesma esta passando por um verdadeiro sucateamento, com uma aparelhagem super ultrapassada, transmissores de péssima qualidade, fazendo com que a emissora fique mais fora do ar do que tudo. Numa época em que um canal de rádio custa muito caro a Igreja Católica deveria vendê-la e aplicar o seu dinheiro em finalidades sociais que a mesma tanto prega. A Cultura AM, que já foi a emissora dos jovens nos anos 70 e início dos 80, está sumindo do ar a passos largos. Por favor, salvem a Cultura AM. É um apelo da sociedade!!!! Elias Torrent Belo Horizonte - MG