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Rádio Guerrilha

"Quem sou eu para convencer as pessoas de que minha idéia de justiça é a correta? Porque as pessoas não podem abrir suas mentes e pensar por sí próprias?"
Veran Matic


Iugoslávia, final da década de oitenta. O aniversário de Josip Broz Tito, comunista que governou o país entre 1953 e 1980, era comemorado todos os anos com pompa, exibições públicas e paradas militares. Em 1989, a Sérvia inovou em sua comemoração: decidiu criar uma rede de rádio e televisão para o público jovem, mas que transmitiria por apenas duas semanas, duração das festividades. O problema é que a emissora de rádio foi entregue a um grupo de jovens que não simpatizavam nem um pouco com o regime comunista, eram críticos e conhecidos como "os filhos descontentes de Tito". Logicamente, eles não se contentariam com apenas duas semanas...
Esse é o tema do livro "Rádio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado", do jornalista e escritor Matthew Collin, traduzido por Marcelo Orozco.
Veran Matic, um dos fundadores e primeiro diretor da rádio B92, como foi batizada, baseou as regras da emissora na Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas e se fez valer do seu direito de liberdade de expressão. A programação musical era extremamente alternativa, calcada principalmente no Hip Hop e no Rock. O jornalismo era crítico, ácido e opositor ao então nascente regime do ditador Slobodan Milosevic.
A emissora funcionava num pequeno conjunto comercial no centro de Belgrado, que havia servido como comitê central do Partido Comunista, e transmitia em baixa potência. Mas suas idéias ressoavam não só entre os jovens do underground sérvio. Tanto é que a emissora foi fechada diversas vezes e sofreu intervenções estatais, como a substituição de todos os seus funcionários por jornalistas e burocratas do regime em um determinado período. Milosevic sabia do poder da rádio, mas, logicamente, não demonstrava claramente.
No livro, Collin mostra a garra e a vontade do povo sérvio, que tirou à força o ditador Milosevic do comando. Em alguns momentos, Collin deixa de lado o tema "rádio" e aborda longamente as complicadas questões políticas dos balcãs. Bom para contextualizar o leitor, mas cheio de detalhes e de nomes terminados em "ic".
A B92 existe até hoje (http://www.b92.net/) e é uma rádio comercial. Segundo o autor e outras pessoas ouvidas, a emissora continua com o seu jornalismo crítico e utiliza, como no início, o seu direito de liberdade de expressão. Mas foi uma transição traumática: os críticos afirmam que a garra do início se perdeu e a B92 agora é apenas "mais uma". Os funcionários que estão lá hoje não têm uma causa e é apenas um emprego para eles. Seria o preço do crescimento...
O livro sugere algumas discussões interessantes no contexto das rádios brasileiras. Lá, um grupo de jovens decide manter uma rádio no ar para dizer o que pensa, tocar o que gosta e protestar. Aqui no Brasil, infelizmente, se abre uma rádio pirata para ganhar dinheiro com anúncios do açougue da esquina e do mercadinho da avenida. Existem, sim, as excessões (vide "Rádio Favela"), mas até para ouví-las é difícil. Alguma "pirata comercial", mais potente, vai cobrir o seu sinal e barrar a revolução. A população brasileira não está preparada para uma rádio como a B92 e talvez nunca esteja. Seus programas, cita o livro, beiravam o limite do underground. Até suas vinhetas eram provocadoras e barulhentas. Nelas, trechos de discursos de Milosevic eram utilizados como armas contra ele próprio. A rádio tinha sua posição política no editorial: em 2004, seu slogan era "Bori se - vá a luta", em apoio ao candidato à presidência, o democrada Boris Tadic (que, aliás, ganhou o pleito e governa o país até hoje). Seria como se a Rádio Bandeirantes assumisse oficialmente o seu lado "alckimista" durante as eleições. Que escândalo seria, não?

"Rádio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado"
Autor: Matthew Collin, traduzido por Marcelo Orozco.
Editora Barracuda
Preço: Entre R$ 35,20 e R$ 44,00 (http://compare.buscape.com.br/prod_unico?idu=1859849016&kw=r%E1dio+guerrilha&ordem=prec&pagina=1)

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