Pular para o conteúdo principal

Para ler, pensar e opinar

Radialismo Rock, Drogas e Imbecilização Juvenil

Por Alexandre Figueiredo
Do Web site Tributo à Rádio Fluminense


A associação entre drogas e rock é histórica. Muitos são os ídolos e fãs que através do rock mergulham no pesadelo das drogas e não raro sacrificam suas vidas em conseqüência do vício. No entanto, sabe-se que o universo das drogas não pode ser confundido com o do rock, uma vez que há muitos não-drogados vinculados ao rock, assim como há muitos drogados ligados a outras
tendências, como o miami bass carioca (que muitos dizem ser funk) e o pagode rebolativo baiano pós-Harmonia do Samba.

Nos últimos anos, o grunge e seu derivado nu metal reconstituiram o lamentável fascínio dos jovens pelas drogas, mas com o agravante da visão maniqueísta que os jovens ditos "rebeldes" têm a respeito da relação polícia X favela, onde a primeira é vista sempre como o "mal" e a segunda sempre como o "bem". Nessa visão, trabalhada sutilmente por uma mídia teen metida a arrojada, um favelado com metralhadora em punho é visto como um "herói", como um Robin Hood moderno.

No rádio, a idéia infeliz de deturpar o radialismo rock - que caminhava para um processo de sensatez e sobriedade que estimulava a autocrítica e o senso crítico dos jovens brasileiros - a uma performance imbecilizante e cheia de absurdos, fez com que o jovem se tornasse ainda mais vulnerável do que antes no que se refere ao uso das drogas.

A partir de um marketing que transforma o jovem num indivíduo narcisista, agressivo e egoísta, capaz de chamar qualquer um de "imbecil" só por alguma discordância, ou gritar até para os próprios pais e defender sua irresponsabilidade de forma intransigente, a alienação juvenil acaba estragando praticamente toda uma geração, e hoje se vê que, de todos os indivíduos nascidos depois de 1978, apenas uma minoria se livra completamente do processo de imbecilização promovido pela mídia dedicada aos jovens. É notória a ignorância da maioria dessa geração pós-1978 em relação às coisas do passado ou a referenciais preciosos da cultura mundial.

O radialismo rock, na medida em que se diluiu para a fórmula "Jovem Pan 2 com guitarras" - não é segredo algum que a Rádio Cidade e a 89 FM espelham seu formato, de forma explícita, com a Jovem Pan 2 e Transamérica, apesar da aparente hostilidade entre os ouvintes - , causou um enorme e praticamente irreparável prejuízo à formação cultural dos jovens.

A partir de locutores engraçadinhos, programas de besteirol, publicidade enganosa que cita o nome do rock em vão e um repertório que não sai do hit-parade, essas "rádios rock" criam estereótipos de jovens "rebeldes" que deixam claro que essas rádios supostamente alternativas estão em consonância com todo o processo de imbecilização que, no caso do povo pobre, é simbolizada pela baixaria na televisão e pela música popularesca da pior qualidade (breganejo, pagode, axé-music etc.)

Alguns aspectos podem ser aqui enumerados:

1. A divulgação de bandas de rock caiu em qualidade e quantidade. Os jovens de hoje estão muito mais presos ao hit-parade do que os jovens de vinte anos atrás. É um gosto musical medíocre e muito pouco ousado, pois são sempre as mesmas bandas e músicas de "sucesso".

2. Os jovens passaram a se comportar como playboys e clubbers, com um comportamento boçal e estuúdo. Não pára por aí. Gírias ridículas como "balada" e "galera", pelo seu poder massificante (fruto dos executivos e publicitários que difundem essas gírias) são faladas tanto pelos roqueiros atuais como por funkeiros e pagodeiros.

3. O jovem perdeu o senso de respeito humano, passando a xingar quem discorda de suas opiniões equivocadas ou de frágil sentido lógico. Pior: jovens passaram a ser até conservadores, adotando valores de direita mesmo mantendo clichês (datados) do comportamento rebelde, como falar palavrão a toda hora, pogar nos shows, andar como junkie e usar tatuagens e piercings.

Com isso, é claro que a vulnerabilidade dos jovens se torna grande. Eles acabam agindo para justificar o "sistema" que acreditam combater. Defendem ídolos medíocres como Charlie Brown Jr., Guns N'Roses e Marilyn Manson porque rock para eles é apenas catarse. São alienados e se orgulham em não querer ler livros, nem ver filmes e nem mesmo ter senso crítico, que eles julgam ser "frescura".

Esses jovens se acham felizes porque agora seus telefones celulares de última geração são verdadeiros brinquedos, que eles podem somente pensar em praia, noitada, esportes radicais, de forma obsessiva, viciada e irracional. E, a partir disso, tratar o "inocente" consumo de maconha como uma forma de "transgredir" o "sistema", quando na verdade o consumo de drogas é a coisa mais favorável ao "sistema" do que se pensa, uma vez que os traficantes de drogas juntam a ganância capitalista com a violência fascista para se sustentarem no poder.

Enquanto o jovem for tratado como imbecil, sem o menor cuidado de uma mídia melhor habilitada, os traficantes continuarão fortes, porque um jovem imbecil, alienado e acrítico, desprovido de sensatez, autocrítica e respeito humano, será um grande consumidor de drogas em potencial.

Comentários

Anônimo disse…
Mas e agora, que está definida(ou estão definindo)essa geração, o que fazer?
Cruzar os braços?Criticar?
A resposta pra essa pergunta é a que todos nós queremos.

E também reforço que não estão imbecializando somente os jovens..é só abrir os olhos um pouco mais.
Anônimo disse…
As pessoas têm um conceito absolutamente errado sobre "roqueiros". Pra elas são todos drogados e rebeldes (o que são na maioria da vezes). E os que gostam de funk, pagode barato entre outros? São comuns, claro. Fazem besteiras como todos, muita baixaria. Mas aí, pra eles, é diferente, a final são adolescentes.
Não somos super-heróis, não vamos mudar o mundo. Mas também não podemos fazer como todos. Creio que apenas temos que fazer o que é "certo" e tentar mudar os pensamentos e ações de pessoas próximas para que elas também o façam.

Tenho 14 anos, odeio drogas e bebidas com álcool. Sou tímida, odeio aprecer. Adoro matemática e física. Não saio com a maioria de meus amigos, sei que no final dá besteira. Adoro bandas como Kiss, Aerosmith, Led Zeppelin, Beatles, Pink floid e também música clássica. Quando as pessoas vêem o que ouço, se escandalizam e dizem: nossa, não parece que você gosta de ouvir isto.
Não sei o que mais posso fazer pra isso mudar, mas sem fazer nada nós não podemos ficar.

Postagens mais visitadas deste blog

Difusora e Excelsior

Estava eu "fuçando" no Google sobre rádios e locutores quando encontrei esse blog interessante. Como já estou na faixa etária dos 50, relembro com muita saudade as Rádios Difusora e Excelsior. Aí eu pergunto: por onde andam as vozes, que me faziam suspirar, de Antonio Celso e Dárcio Arruda? Li semanas atrás sobre o saudoso Henrique Régis, outra voz maravilhosa!Portanto,se alguém souber sobre o paradeiro deles, me contem. A última vez que ouvi falar do Antonio Celso é que ele estava na Voz da América. Abraços!!! Vânia Amélia Dellapasi vdellapasi@yahoo.com.br ----------------------------- Cara Vânia, Dárcio Arruda é diretor de jornalismo e comanda um talk show diário na Rede TV Mais de Santo André. Não sei por onde andam os demais. Se alguém souber, mande um sinal de fumaça para cá. Um abraço, Vânia e continue na nossa sintonia.

Os Melôs da Rádio Mundial

Extraído da extinta comunidade do Big Boy no Orkut. Leia e comente: Já que o assunto é também a Rádio Mundial, que tal relembrarmos as "melôs" que esta rádio inventava (por que não dizer inovava)? Melô DO POPEYE - Frank Smith - Double Dutch Bus Melô DA PORRADA - Bachman Turner Overdrive - Hold Back The Water Melô DO BÊBADO - Bob James - Sign Of The Times Melô DA XOXOTA - Crown Heights Affair - Sure Shot Melô DA MAÇÃ - The Trammps - Zing Went The Strings Of My Heart Melô DO BANJO - Al Downing - I'll Be Holding On Melô DO PULADINHO - George McCrae - Rock Your Baby Melô DA ASA - Randy Brown - I'd Rather Hurt Myself Melô DO BOMBEIRO - Jim Diamond - I Should Have Known Better Melô DAS MENINAS - Debbie Jacobs - Hot Hot Melô DA MARCHA À RE - Gap Band - Oops Upside Your Head Melô DO TARZAN - Baltimora - Tarzan Boy Melô DA CONCEIÇÃO - Love De Luxe - Here Comes That Sound Melô DO BROWN - Tom Tom Club - Genius of Love Melô DA BANDINHA - Jimmy Ross - First True Love Af...

Vamos resgatar a Rádio Cultura da Belo Horizonte

Amigos da Rádio Base É uma vergonha o que está acontecendo com uma das emissoras mais tradicionais de Belo Horizonte. Desde que a Igreja Católica adquiriu a Rdio Cultura AM 830 KHz, a mesma esta passando por um verdadeiro sucateamento, com uma aparelhagem super ultrapassada, transmissores de péssima qualidade, fazendo com que a emissora fique mais fora do ar do que tudo. Numa época em que um canal de rádio custa muito caro a Igreja Católica deveria vendê-la e aplicar o seu dinheiro em finalidades sociais que a mesma tanto prega. A Cultura AM, que já foi a emissora dos jovens nos anos 70 e início dos 80, está sumindo do ar a passos largos. Por favor, salvem a Cultura AM. É um apelo da sociedade!!!! Elias Torrent Belo Horizonte - MG