Cantora de voz possante e inebriante, Inezita Barroso, ajudou a desenhar a história da música caipira brasileira


Por Fernando Pereira da Silva*

E a Grande Dama da Música Caipira se foi. Morreu na noite deste domingo (8) a cantora e apresentadora Inezita Barroso. Caipira com C maiúsculo, pois sem dúvida, Inezita foi a principal e maior defensora da cultura caipira, à qual dava espaço no programa "Viola, Minha Viola", que apresentou por quase 35 anos na TV Cultura de São Paulo. Inezita havia completado 90 anos no último dia 4. A cantora deixa uma filha, Marta Barroso, três netas e cinco bisnetos.

Ignez Magdalena Aranha de Lima, nome de batismo de Inezita Barroso, nasceu em 4 de março de 1925, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. De tradicional família paulistana, passou a infância cercada por influências musicais diversas, mas foi na fazenda da família, no interior paulista, que desenvolveu seu amor pela música caipira e pelas tradições populares.  Formou-se em Biblioteconomia pela USP, e foi uma grande pesquisadora do gênero musical. Por conta própria, percorreu o Brasil resgatando histórias e canções.

Cantora de voz possante e inebriante, contralto capaz de dar vida e identidade própria a qualquer composição que interpretasse, Inezita era também instrumentista, violeira, em terra na qual a viola é “coisa de homem”, ou pelo menos era, na época em que iniciou sua carreira nos idos da década de 1940. Outra grande característica era seu lado pesquisadora e de atilada folclorista, muito embora, o mais correto fosse dizer que ela é uma antropóloga, uma etnóloga da música brasileira, Uma Mário de Andrade de saias, a quem desde os nove anos ela esperava passar enquanto andava de patins, já que o mestre do modernismo era seu vizinho. Inezita se devotou ao longo de sua vida a estudar e registrar a música do povo do Brasil.

Nunca cedeu aos apelos da comercialização mais fácil, e por isso foi acusada de intransigente. Para ela o importante era esmiuçar as entranhas desse estranho país a que conhecemos como Brasil. Registrou a alma desse país, transmutada em cantigas, aboios, cateretês, toadas, baiões, tiranas, sambas e modas de viola, entre outros ritmos, alguns já infelizmente sepultados pela voracidade do progresso.

Inezita sempre cantou sua terra e sua gente, naquilo que de mais claro, belo, puro, rítmico e singelo existiu e existe. Os múltiplos cantares, ao qual emprestou sua voz possuída pela fúria da beleza em obras como: o cantar amazônico, de “Minha terra”, de Waldemar Henrique, o caipira, como na “Moda da pinga”, de Cunha Júnior, entre outros que se dizem autores dela, ou na “Moda da onça”, tema tradicional por ela recolhido. Em cantares seresteiros e saudosistas, como na valsa “Lampião de gás”, de Zica Bergami. Ou na “Congada”, de Inara Simões de Irajá, ou no “Nhapopê”, do folclore gaúcho, ou na valsa “Ismália”, poema de Alphonsus de Guimarães musicado por Capiba.  É triste dizer, mas o trabalho de Inezita artístico é o mais fiel retrato de um Brasil em fase final de liquidação, vencido pelo progresso e pela globalização. É por isso que sua arte, lamentavelmente, só encontra espaço em canais de TV específicos. Talvez se seus discos tivessem sido mais divulgados, e tivesse sido ela para cantar e ser ouvida mais e mais através de canais de ampla penetração como as grandes redes de TV comerciais, talvez fôssemos hoje outro país, mais consciente de si mesmo e de sua identidade. Com certeza teríamos uma música mais próxima de nossa terra, do que do canto com cheiro de plástico e hambúrguer e fast-food. Há mais de trinta anos apresentando na TV Cultura o programa “Viola, minha viola”, tornou-se referência na música sertaneja tradicional e madrinha de muitos artistas e duplas sertanejas tornando-se a ida a seu programa dominical um verdadeiro troféu para os artistas.

Vai com Deus Inezita. E minha homenagem vai com os versos finais da poesia Brasil Caboclo, do poeta paraibano Zé da Luz, pois você foi a mais digna representante do “Brasi caboco. Um Brasi bem brasilero, sem mistura de instrangêro”. Um Brasi nacioná! Brasi, qui foi, eu tô certo argum dia discuberto, pru Pêdo Arves Cabrá.

*Fernando Pereira da Silva é especialista em Cultura Caipira e professor do Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Comentários