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Eugênio Bucci revela pressões no comando da Radiobrás

Sua gestão foi marcada pelo combate ao jornalismo chapa branca e enfrentou pressões políticas

Daniel Bramatti, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcou sua gestão pelo combate ao chamado jornalismo chapa-branca - promocional e bajulatório - que sempre caracterizou a comunicação estatal. Nesse processo, enfrentou pressões políticas e o que chama de "cultura ancestral" da empresa, como relata no livro Em Brasília, 19 horas.

"O hábito, independentemente do partido que ocupasse a presidência da República, era usar essa comunicação para fazer uma espécie de promoção das autoridades, era fazer propaganda das idéias dos governantes", afirma Bucci. Na entrevista a seguir, ele conta quem o apoiava no governo e fala das transformações da Radiobrás, mesmo após sua saída do cargo.

O senhor conta no livro que foi convidado pelo ministro Luiz Gushiken porque ele aparentemente teria ficado interessado no projeto de fazer um jornalismo mais voltado para o cidadão e menos para os interesses do governo. Isso foi explícito da parte do ministro ou foi mais uma percepção sua?

Sempre que conversei sobre isso com o Gushiken ele manifestou concordância com esse princípio. Eu cito no livro, inclusive, um trecho de um discurso em que ele diz que a comunicação pública não deve servir aos governantes e sim aos cidadãos.

Mas esse discurso aconteceu quando o processo na Radiobrás já era quase irreversível e estava fazendo sucesso.

É claro, foi um discurso público. Mas, durante a implantação do processo, o ministro Gushiken sempre manifestou concordância com a linha que a gente imprimia.

E da parte do presidente? O senhor relata o episódio em que ele se queixou de uma entrevista. E, quase no final do governo, houve uma manifestação de apoio claro...

Naquele episódio da entrevista eu deixo muito claro no livro que o presidente tinha recebido uma reclamação e a comentava, sem dizer de quem era. Mas ele mesmo jamais reclamou. Mais de uma vez ele comentou comigo que, se uma coisa é verdadeira, tem de ser publicada. Isso precisa ficar muito claro, porque eu só concluí o meu trabalho porque tive efetivamente apoio do presidente. Tive respaldo para fazer o que fiz.


A leitura do livro dá a entender que muito deste respaldo tem a ver com o sucesso do programa Café com o presidente.

Quando consideramos o tema da comunicação pública, é preciso ver de onde partimos e aonde chegamos. O hábito, independentemente do partido que ocupasse a Presidência da República, era usar essa comunicação para fazer uma espécie de promoção das autoridades, era fazer propaganda das idéias dos governantes. Esse hábito atravessa as administrações de governo desde a ditadura, pelo menos.

Se olharmos no entorno, nos Estados, várias das instituições chamadas de públicas padecem de uma proximidade excessiva com os governos. E muitas vezes são usadas abertamente para fins de defesa da versão que o governo quer dar sobre um fato ou outro.

O movimento que a Radiobrás fez com minha gestão foi sair desse universo e chegar a outro ponto, em que se começou a discutir para valer a abertura de um sistema de comunicação pública mesmo, com independência. Nesse percurso, nós fizemos o Café com o presidente. É um programa que só pode ser compreendido pelo signo da ambigüidade. Em relação ao passado, ele é um avanço claríssimo.

Os programas de rádio de Sarney e Fernando Henrique Cardoso eram um monólogo, e os temas eram temas pouco jornalísticos. Com o Lula, os temas passam a ser bastante jornalísticos. O Lula responde a perguntas que um apresentador leva para ele, e, muitas vezes, são perguntas de alta temperatura jornalística. Então é um avanço. Mas ainda continua um programa, no limite, sob controle do presidente. Nesse sentido, é menos jornalístico do que deveria ser.

O fato de o programa ter dado certo trouxe prestígio à Radiobrás, mas, de novo, esse prestígio só pode ser entendido sob o signo da ambigüidade. Ele tem prestígio junto às redações jornalísticas do país, porque gera notícias. E tinha prestígio junto a assessores do presidente. Eles ficavam contentes porque o presidente aparecia de uma forma favorável. Esta ambigüidade eu faço questão de mostrar, porque ela sintetiza uma situação da chamada comunicação pública hoje no Brasil. Não acho que o apoio à Radiobrás se deva ao Café com o presidente, mas é uma das realizações de minha gestão, e isso pode e deve ter contribuído para que houvesse uma avaliação positiva da empresa no governo.


Como está a Radiobrás hoje? Seu projeto parou, avançou ou houve retrocesso?

Acho que houve avanços, mesmo depois de minha saída. Avanços que se devem ao despertar da opinião pública para este assunto. É a opinião pública que fiscaliza se os governos estão instrumentalizando ou não as emissoras para fins partidários. Temos um amadurecimento da mentalidade democrática.

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