Antes tarde que nunca. Depois de ser citada em jornais como a Folha de S. Paulo, o Jornal da Tarde, o blog Onzenet, e até mesmo neste Rádio Base, a rádio pirata do reverendo Francisco Silva (ou padre Chico) finalmente foi descoberta pela Rádio Bandeirantes e virou tema de reportagem.
Para quem nasceu ontem (citando Geneton Moraes Neto), a emissora está no ar há cerca de dez anos e serve como veículo para a igreja mantida por Silva. Durante a programação, entre outras coisas, ele promete ajuda espitiritual para problemas como a cura da frieza sexual, por exemplo. Nos intevalos, são tocadas músicas que frequentam as paradas de sucessos populares.
A emissora já operou nos 90,1 Mhz e tinha o nome de Planeta 90 FM. Atualmente, ela pode ser sintonizada nos 102,9 Mhz. Graças aos seus mais de 5000 watts, ela ultrapassa os limites da cidade de São Paulo e chega longe, atrapalhando assim a recepção do sinal de emissoras oficiais, como a Band Vale FM, em Campos do Jordão. Talvez seja esse o detalhe que motivou a reportagem veículada pela Bandeirantes no último dia 24 de setembro. Procurado pelo repórter Agostinho Teixeira, o padre Chico encerrou bruscamente o contato dizendo termos nada cristãos.
A seguir, vamos reproduzir algumas reportagens publicadas pela Folha de S. Paulo (e reproduzidas na Folha On Line) entre os anos de 2001 e 2003. A Bandeirantes, desta vez, chegou tarde na notícia.
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16/02/2001 - 04h38
MARCELO VALLETTA, da Folha de S.Paulo
A pirata Planeta FM, que toca música sertaneja e já foi fechada quatro vezes, voltou a operar na frequência 90,1 MHz, com um transmissor de menor potência. O responsável pela rádio, Francisco Sales Silva, conhecido com Padre Chico, havia sido preso em flagrante em novembro de 2000
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18/09/2002 - 02h48
Sexta-feira 13 com o padre vidente da FM
LAURA MATTOS
da Folha de S.Paulo
Em outras rádios, candidatos prometem de tudo no horário eleitoral. Na pirata 90,1 FM, a Planeta 90, a propaganda política obrigatória não vai ao ar, mas o padre vidente Francisco Silva também faz promessas: uma consulta com ele "resolve todos os seus problemas, cura frieza sexual, desfaz trabalhos e traz a pessoa amada em poucos dias".
A estação, criada em 98, toca música popular. Já foi fechada seis vezes pela Polícia Federal e Francisco Sales Silva, que se auto-intitula padre vidente, preso. No ar, a propaganda não pára: "Marque uma consulta". Esta coluna decidiu "se consultar". Quanto custa? "R$ 20. Ele põe o nome na gruta e ora." Marcamos para sexta.
É uma escadaria numa portinha entre dois açougues, debaixo de um viaduto. Uma placa diz: "Igreja Católica Santa Missões". Lá em cima, um salão com 300 cadeiras voltadas para um altar pintado de amarelo, roxo, azul e laranja. Ao lado, loja de produtos "religiosos". Na parede, lista dos "dizimistas" e um cartaz com 25 razões para pagar o dízimo: "Porque quero ter a consciência tranquila, porque meu salário não será posto em um saco furado...".
Umas 20 pessoas esperavam a "consulta", metade para as 10h. Uma secretária chegou às 10h40. Recebeu os R$ 20 de cada fiel, que colocava a mão direita sobre um papel para ela fazer o contorno com caneta. "Entrega pro padre."
A missa começava. "Nesta sexta-feira 13, macumbeiros farão sacrifício até com sangue de gente", dizia o padre, não o Francisco Silva, para os cerca de 200 fiéis.
"Sua vez." Um garoto de 20 e poucos anos, batina dourada rasgada, atendeu numa sala, nos fundos da igreja. Francisco Silva? "Não, padre Marcos." Viu a mão no papel. "Qual é o problema?" Pela tangente: "Uma amiga pediu para eu vir. O marido é alcoólatra". "Feche os olhos. Em nome do senhor..." E rezou por segundos. "Vi uma baiana enterrando três garrafas de cachaça com a boca pra baixo. Esse homem era pra estar morto. Mande sua amiga vir. Digo o nome de quem fez o trabalho. Vá com Deus."
A coluna tentou falar com Francisco Silva, ontem, por telefone. A secretária, Clarice, disse que ele não iria comentar e que a rádio não era dele. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicação) diz que ele é o responsável pela FM. "Essa emissora não outorgada já foi interrompida seis vezes. Responde a vários inquéritos, mas a impunidade impera. Já representamos criminalmente novamente. Estamos aguardando a PF requisitar nosso apoio", respondeu a Anatel, responsável pela fiscalização de rádios piratas.
Só para fixar: "A impunidade impera". Palavra da Anatel.
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29/01/2003 - 03h00
Outra Frequência: PF fecha cerco contra rádios
LAURA MATTOS
da Folha de S. Paulo
Enquanto o governo Lula não decide o que fazer com as polêmicas rádios comunitárias, a Polícia Federal já deu uma determinação a seus agentes: fechar o cerco contra AMs e FMs sem autorização para operar.
A ação da PF de São Paulo é uma clara demonstração dessa política. O GCrac (Grupo de Combate às Rádio Clandestinas), antes formado por policiais "emprestados" de outras áreas por tempo determinado, contará com uma equipe fixa e especializada.
O escritório do grupo passará por reforma, com melhorias tecnológicas e a implementação de um banco de dados sobre as rádios. "A ordem é agilizar processos e fazer uma fiscalização mais rígida", diz Gladson Rogério, um dos delegados-titulares do GCrac.
O atual "inimigo número 1" do grupo é Francisco Silva, que se auto-intitula padre vidente e usa a pirata Planeta 90 FM (90,1 MHz, em SP) para fazer propaganda de suas consultas na igreja no Brás.
Em dezembro, a PF apreendeu no local uma submetralhadora com silenciador, uma espingarda e munição, entre outras coisas. Lacrou a antena que emitia sinais da rádio, em Mairiporã, e instaurou inquérito contra Silva. Além de dono de rádio clandestina, ele também poderá ser indiciado por porte ilegal de arma, lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem tributária, segundo a PF.
A Folha tentou falar com o padre por dois dias na igreja, mas atendentes sempre informavam que ele não estava e que não poderiam comentar as acusações.
O mais interessante de toda essa história: poucos dias depois de a antena ter sido lacrada, a Planeta 90 FM já estava no ar novamente, podendo ser sintonizada em toda a região metropolitana de São Paulo (vale a pena escutar uns minutos, só por curiosidade...).
Essa não foi a primeira vez que uma operação da PF não conseguiu, de fato, fechar a rádio. Desde 1998, quando a emissora foi criada, Silva (que já chegou a ser preso) resiste no ar, escancarando os problemas de fiscalização. Agora, na operação "linha dura", a PF garante que o caso é "questão de honra" e que o fechamento dessa FM será só um exemplo do que se fará com as estações sem autorização do governo.
E, ao mesmo tempo em que a PF endurece, defensores das comunitárias decidiram, no Fórum Social Mundial, enviar a Lula documento pedindo um "posicionamento imediato do governo" sobre a questão. Um dos que se destacaram no apoio à idéia foi justo um membro da PF, Armando Coelho Neto, presidente da Federação Nacional dos Delegados de PF de SP. Curioso, no mínimo.
Para quem nasceu ontem (citando Geneton Moraes Neto), a emissora está no ar há cerca de dez anos e serve como veículo para a igreja mantida por Silva. Durante a programação, entre outras coisas, ele promete ajuda espitiritual para problemas como a cura da frieza sexual, por exemplo. Nos intevalos, são tocadas músicas que frequentam as paradas de sucessos populares.
A emissora já operou nos 90,1 Mhz e tinha o nome de Planeta 90 FM. Atualmente, ela pode ser sintonizada nos 102,9 Mhz. Graças aos seus mais de 5000 watts, ela ultrapassa os limites da cidade de São Paulo e chega longe, atrapalhando assim a recepção do sinal de emissoras oficiais, como a Band Vale FM, em Campos do Jordão. Talvez seja esse o detalhe que motivou a reportagem veículada pela Bandeirantes no último dia 24 de setembro. Procurado pelo repórter Agostinho Teixeira, o padre Chico encerrou bruscamente o contato dizendo termos nada cristãos.
A seguir, vamos reproduzir algumas reportagens publicadas pela Folha de S. Paulo (e reproduzidas na Folha On Line) entre os anos de 2001 e 2003. A Bandeirantes, desta vez, chegou tarde na notícia.
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16/02/2001 - 04h38
MARCELO VALLETTA, da Folha de S.Paulo
A pirata Planeta FM, que toca música sertaneja e já foi fechada quatro vezes, voltou a operar na frequência 90,1 MHz, com um transmissor de menor potência. O responsável pela rádio, Francisco Sales Silva, conhecido com Padre Chico, havia sido preso em flagrante em novembro de 2000
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18/09/2002 - 02h48
Sexta-feira 13 com o padre vidente da FM
LAURA MATTOS
da Folha de S.Paulo
Em outras rádios, candidatos prometem de tudo no horário eleitoral. Na pirata 90,1 FM, a Planeta 90, a propaganda política obrigatória não vai ao ar, mas o padre vidente Francisco Silva também faz promessas: uma consulta com ele "resolve todos os seus problemas, cura frieza sexual, desfaz trabalhos e traz a pessoa amada em poucos dias".
A estação, criada em 98, toca música popular. Já foi fechada seis vezes pela Polícia Federal e Francisco Sales Silva, que se auto-intitula padre vidente, preso. No ar, a propaganda não pára: "Marque uma consulta". Esta coluna decidiu "se consultar". Quanto custa? "R$ 20. Ele põe o nome na gruta e ora." Marcamos para sexta.
É uma escadaria numa portinha entre dois açougues, debaixo de um viaduto. Uma placa diz: "Igreja Católica Santa Missões". Lá em cima, um salão com 300 cadeiras voltadas para um altar pintado de amarelo, roxo, azul e laranja. Ao lado, loja de produtos "religiosos". Na parede, lista dos "dizimistas" e um cartaz com 25 razões para pagar o dízimo: "Porque quero ter a consciência tranquila, porque meu salário não será posto em um saco furado...".
Umas 20 pessoas esperavam a "consulta", metade para as 10h. Uma secretária chegou às 10h40. Recebeu os R$ 20 de cada fiel, que colocava a mão direita sobre um papel para ela fazer o contorno com caneta. "Entrega pro padre."
A missa começava. "Nesta sexta-feira 13, macumbeiros farão sacrifício até com sangue de gente", dizia o padre, não o Francisco Silva, para os cerca de 200 fiéis.
"Sua vez." Um garoto de 20 e poucos anos, batina dourada rasgada, atendeu numa sala, nos fundos da igreja. Francisco Silva? "Não, padre Marcos." Viu a mão no papel. "Qual é o problema?" Pela tangente: "Uma amiga pediu para eu vir. O marido é alcoólatra". "Feche os olhos. Em nome do senhor..." E rezou por segundos. "Vi uma baiana enterrando três garrafas de cachaça com a boca pra baixo. Esse homem era pra estar morto. Mande sua amiga vir. Digo o nome de quem fez o trabalho. Vá com Deus."
A coluna tentou falar com Francisco Silva, ontem, por telefone. A secretária, Clarice, disse que ele não iria comentar e que a rádio não era dele. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicação) diz que ele é o responsável pela FM. "Essa emissora não outorgada já foi interrompida seis vezes. Responde a vários inquéritos, mas a impunidade impera. Já representamos criminalmente novamente. Estamos aguardando a PF requisitar nosso apoio", respondeu a Anatel, responsável pela fiscalização de rádios piratas.
Só para fixar: "A impunidade impera". Palavra da Anatel.
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29/01/2003 - 03h00
Outra Frequência: PF fecha cerco contra rádios
LAURA MATTOS
da Folha de S. Paulo
Enquanto o governo Lula não decide o que fazer com as polêmicas rádios comunitárias, a Polícia Federal já deu uma determinação a seus agentes: fechar o cerco contra AMs e FMs sem autorização para operar.
A ação da PF de São Paulo é uma clara demonstração dessa política. O GCrac (Grupo de Combate às Rádio Clandestinas), antes formado por policiais "emprestados" de outras áreas por tempo determinado, contará com uma equipe fixa e especializada.
O escritório do grupo passará por reforma, com melhorias tecnológicas e a implementação de um banco de dados sobre as rádios. "A ordem é agilizar processos e fazer uma fiscalização mais rígida", diz Gladson Rogério, um dos delegados-titulares do GCrac.
O atual "inimigo número 1" do grupo é Francisco Silva, que se auto-intitula padre vidente e usa a pirata Planeta 90 FM (90,1 MHz, em SP) para fazer propaganda de suas consultas na igreja no Brás.
Em dezembro, a PF apreendeu no local uma submetralhadora com silenciador, uma espingarda e munição, entre outras coisas. Lacrou a antena que emitia sinais da rádio, em Mairiporã, e instaurou inquérito contra Silva. Além de dono de rádio clandestina, ele também poderá ser indiciado por porte ilegal de arma, lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem tributária, segundo a PF.
A Folha tentou falar com o padre por dois dias na igreja, mas atendentes sempre informavam que ele não estava e que não poderiam comentar as acusações.
O mais interessante de toda essa história: poucos dias depois de a antena ter sido lacrada, a Planeta 90 FM já estava no ar novamente, podendo ser sintonizada em toda a região metropolitana de São Paulo (vale a pena escutar uns minutos, só por curiosidade...).
Essa não foi a primeira vez que uma operação da PF não conseguiu, de fato, fechar a rádio. Desde 1998, quando a emissora foi criada, Silva (que já chegou a ser preso) resiste no ar, escancarando os problemas de fiscalização. Agora, na operação "linha dura", a PF garante que o caso é "questão de honra" e que o fechamento dessa FM será só um exemplo do que se fará com as estações sem autorização do governo.
E, ao mesmo tempo em que a PF endurece, defensores das comunitárias decidiram, no Fórum Social Mundial, enviar a Lula documento pedindo um "posicionamento imediato do governo" sobre a questão. Um dos que se destacaram no apoio à idéia foi justo um membro da PF, Armando Coelho Neto, presidente da Federação Nacional dos Delegados de PF de SP. Curioso, no mínimo.
Comentários
Também conheci várias rádios comunitárias no Rio de Janeiro e em cidades do interior de Minas Gerais e São Paulo. Os interesses eram comerciais (visavam só o lucro sobre os pequenos comerciantes), políticos(programas assistencialistas voltados para a população pobre carente de remédios e até de comida. Tudo em troca de votinhos) e religiosos (nem vou comentar).
Como postado aqui no blog, se os donos de Rádios e TV Comerciais agem fora-da-lei impunemente (com o aval do presidente), porque as "comunitárias" não o fariam?
Uma vez ouvi uma coisa que talvez fosse uma boa idéia: porque não associar as Rádios Comunitárias à escolas públicas? Escolas públicas estão em todas as comunidades. Existem escolas públicas excelentes. A Escola tem o dever de promover a cidadania e seria responsável pela inserção da comunidade dentro da programação.
Mas quem iria "tomar conta" da Rádio? O Senac despeja centenas de radialistas no mercado todo ano que teriam de fazer concurso (como é feito com os professores). É uma pequena idéia, mas se pensada direitinho poderia funcionar. É claro que o governo teria de fazer a sua parte. Mas aí complica tudo de novo...