Para dar certo, a @NovaRadioGlobo precisa tirar os ouvintes da concorrência desesperadamente


Agora que a programação da @NovaRadioGlobo entrou no ar pelos 94,1 MHz, em São Paulo, dá para fazer uma análise deste começo de projeto. Infelizmente as notícias não são boas. Há de se ressaltar que um dos poucos aspectos a se elogiar é a parte técnica /operacional, que felizmente parece ainda estar nas mãos dos profissionais remanescentes da "antiga" emissora. As novas vinhetas conseguiram o seu objetivo que foi renovar a chamada plástica da rádio, muito embora aquela que existia há quase 40 anos não estava de toda defasada de modo algum.

No mais, o novo projeto ainda parece uma sucessão de enganos e mal entendidos. É fato que o rádio brasileiro, desde priscas eras, sempre foi inspirado - pra não dizer copiado - do modelo norte americano , ainda na década de 1940. Só que tínhamos o sotaque, o jeitinho e o jogo de cintura e a espontaneidade típica do nosso povo.

Quando começamos a ouvir cada uma das novas atrações, sempre vem uma questão à mente: para quem eles estão fazendo isso? Segundo a nova proposta do Sistema Globo de Rádio, a intenção é "criar uma sinergia das emissoras com os demais veículos do Grupo Globo". É uma visão interessante e oportuna, ainda mais em tempos feios de crise como a que estamos passando.

O problema todo parece ter sido as premissas da qual eles partiram, ou seja, pegar "influenciadores" que possuam muitos seguidores nas redes sociais para substituir os verdadeiros campeões de audiência, de preferência que sejam atuantes como artistas ou jornalista da TV Globo (?). Para disfarçar um pouco tamanha sandice, resolveram ceder aos encantos do mercado de arrendamento de frequência e resolver pagar uma alto aluguel pelo uso da faixa dos 94,1 MHz, em São Paulo, o maior e mais competitivo mercado de mídia do país. Aí fica uma questão: por que alugar um canal de FM se, em breve, o Sistema Globo de Rádio em São Paulo deverá ganhar muito em breve pelo menos dois?

Olhados individualmente, as atrações imitam sem nenhum toque criativo o que já existe em outras emissoras. O curioso é que eles conseguiram a proeza de imitar programas de emissoras de estilos diferentes: popular, jovem, adulto contemporâneo e até jornalístico. O carro-chefe da nova Rádio Globo o matinal “No ar com Otaviano Costa”, é uma cópia exata do americano “On air with Ryan Seacrest”, só que mal adaptada ao Brasil. Não se sabe que tipo de público ele pretende conquistar, apesar da empresa jurar que vai cativar o público jovem conectado integralmente à internet e às redes sociais. Não deu para entender ainda o que é esse "No Ar..." ao certo. Se é um "talk show", um "morning show" ou uma mera tentativa de fazer um "Show do Antonio Carlos" só que para um público pretensamente mais novo, mais "classe média" e mais "antenado".

O programa que vem na sequência - "Papo de Almoço" - dá a impressão de concorrer diretamente com programas do horário como "Pânico", "Ramona 89", "Filhos da Pátria", "Bem que se Kiss", "Transalouca", etc. No que pese o fato de alguns apresentadores já demonstrarem que se adaptaram perfeitamente ao meio - como Léo Jaime, Thiago Abravanel ou Cláudio Manoel - "o colóquio da refeição no meio do dia" carece de uma produção mais bem trabalhada. É semelhante demais ao programa de Otaviano Costa. Outra coisa que não se entende é o fato de cada dia ter um apresentador diferente. Com certeza isso rola por causa dos compromissos que as estrelas globais assumem na TV Globo ao longo da semana. Esta fator atrapalha demais um bom desempenho da atração.

Às 14h, entra um "vitrolão" chamado "Tá Rolando Música", que é a versão do Sistema Globo de Rádio para a programação da Alpha FM, JB FM ou Antena 1. Resta saber se algum ouvinte dessas três deixaria de escutá-las para acompanhar a "Nova Globo FM"....

Três horas depois, chegam à grade os dois programas mais bizarros da emissora até aqui. "Redação Globo", com Rosana Jatobá, se limita a ler o que os demais veículos do grupo Globo estão veiculando de notícias. O máximo de produção ouvido ali é a apresentadora ligando para a redação da CBN para saber "quais são as últimas". É muito mais fácil e rápido o ouvinte/internauta consultar os diversos sites e redes sociais da concorrência, não é mesmo. "Redação Globo" simplesmente mata algo que é essencial no radiojornalismo: a reportagem e análise dos fatos.

Na faixa das 18h, começa o esportivo "Zona Mista". Para quem conhece os pioneiros "Na Geral" ou "Estádio 97", ou os mais recentes "Agora o Bicho Vai Pegar" ou ainda o engraçadíssimo "Quem Não Faz, Toma", sabem do que estou falando. Se o assunto é misturar esporte e humor, nem precisa se dar ao trabalho de ouvir o novo "regalo" da Globo, que substituiu, sem ter por quê, o tradicional "Globo Esportivo", que foi estupidamente empurrado para a faixa das 20h, depois de "A Voz do Brasil", um horário em que a audiência radiofônica cai vertiginosamente, sobretudo em dias em que não há futebol.

Para não dizer que tudo está perdido, ainda há o fim de noite com o musical "Em Cartaz", com Charles Gavin, Henrique Portugal, Maurício Valladares, Dedé Teicher, Diogo Nogueira, com artistas que entendem de música. É uma boa opção para que acompanha os programas semanais de emissoras como a 89 FM, Kiss, USP FM, Cultura FM, Eldorado FM, entre outras. E também, aos sábados, o ouvinte pode apreciar o "Sambadasso", com o remanescente Davi Rangel. Trata-se de um programa sobre samba que pode fazer frente ao premiadíssimo "O Samba Pede Passagem", de Moisés da Rocha, na USP FM, por exemplo.

Após "O Momento de Fé" depois da meia-noite - para onde foi "empurrado" o Padre Marcelo Rossi, entra Roni Magrini com o "Bandeira 2". Essa atração "lembra demais" o "Bandeirantes a Caminho do Sol". Carece de uma produção mais bem cuidada a fim de que não se torne mais "vitrolão" perdido na programação, desperdiçando a grande talento de seu apresentador. A programação esportiva continua no mesmo bom nível de outrora e agora inclui bons programas em forma de revista, como o "Futebol à Manivela". Apesar do nome esquisito, ele consegue resgatar a memória esportiva do Brasil através de gravações radiofônicas das "antigas" rádios Globo do Rio e de São Paulo. 

Como se vê, ao menos na filial de São Paulo, o que menos tem nessa "nova encarnação" da Rádio Globo é novidade. Certamente, a continuar assim, não vai conseguir empolgar a audiência paulista nem convencê-la parar de ouvir sua emissora preferida para ouvir o novo projeto do Sistema Globo de Rádio. Também não conseguirá conquistar o tão falado e incensado ''público da internet", que é o mesmo dela e de outras emissoras, inclusive aquele que foi solenemente desprezado pela própria Globo, como bem lembrou o ex-apresentador Antônio Carlos, em entrevista ao site "Rádio de Verdade". 

Não é a primeira vez que o Grupo Globo tentou "modernizar" as suas emissoras no segmento popular. No começo deste século, houve uma tentativa semelhante, embora menos "radical". O resultado foi desastroso. No Rio de Janeiro, a Globo perdeu a hegemonia da liderança da audiência para a Super Rádio Tupi; na capital paulista, o estrago só não foi maior por causa da programação "religiosa" da emissora, que chegava a dar picos de 700 mil ouvintes por minuto no horário em que Padre Marcelo Rossi permanecia no ar, das 9h às 10h.

Resta saber se esse ambicioso projeto terá êxito comercial. Por conta de não ter um canal de FM, a Globo São Paulo perdeu muito em faturamento ao longo dos anos. Praticamente quem a sustentava era a rádio CBN, pertencente também ao SGR. Agora que é "inquilina" dos 94,1 MHz, pode ser que isso a beneficie. E como está aparentemente trabalhando em uma "parceria" mais estreita com a Rede Globo, talvez possa tirar proveito comercial dessa nova situação. Mas antes - e é bom ter bem claro isso - precisa convencer desesperadamente a audiência das outras emissoras, inclusive da própria CBN, a prestigiar sua nova programação. Seus antigos fiéis e cativos ouvintes, que eles solenemente rejeitaram, já estão nos braços da concorrência, para a alegria da Rádio Capital e da Super Rádio Tupi

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