Momento raro de aprender - Na freqüência: o som


Até pouco tempo atrás, rádio não tinha nem o que discutir. Não era assunto, a não ser que fosse uma enfadada exposição sobre a insuportável programação das FMs - coisa tão redundante e tediosa como as próprias. Entre escolher os listões indistinguíveis de uma estação para outra ou o brega policial/musical das AM, o melhor a fazer era desligar o rádio. E se perguntar: "Why transmission?".

Rádio é um canal imediato, fácil e acessível com música e informação, mas isto não quer dizer que tenha de ser imbecil. Menos absorvente que a televisão, mais barato que formar uma coleção de discos, tanto pode servir de fundo para suas mais banais atividades cotidianas como proporcionar um momento especial de atenção e envolvimento. Claro que isto depende da programação que a rádio oferece.

Uma programação diferenciada como a da Rádio 89 FM (SP) é o que constitui novidade, pelo menos para os paulistanos. Os cariocas e fluminenses desde 82 que têm a Rádio Fluminense FM, a experiência mais antiga e que chega a disputar os primeiros lugares na audiência. Em Porto Alegre, a Rádio Ipanema vem desde 83 embalando os ouvidos gaúchos - a rádio atinge muitas cidades do interior - com outros sons. Sem esquecer da Rádio FM 97, do ABC paulista, que mesmo sintonizar direitos em muitos pontos de São Paulo conquistou uma audiência respeitável.

Estamos diante de um mesmo fenômeno: a existência de um tipo de rádio que se dirige para um público que se diferencia por ter um gosto específico - rock, mas com informação e variedade - e igualmente desgostoso com a falta de opções no dial e uma firme repugnância pelo estilo alô-gatinhas-e gatões.


Quebrar com a estupidez da programação das FMs não é uma coisa exatamente nova. Com programas isolados em rádios de esquema FM ou tentativas mais abrangentes de mudar toda a programação, esta já é uma história antiga. Começa em 1974 com o programa "Caleidoscópio", produzido por Jacques na Rádio América, que trazia o rock pós Beatles. Ainda na década passada foram as mudanças, infelizmente de curta duração Rádio Bandeirantes FM e da Rádio Excelsior -aliás nesta última que o atual disc jóckei da 89 FM, Kid Vinil, apresentava seu "Rock Sandwich", o primeiro sopro de modernidade no embolorado fim dos anos 70.

Foi precoce demais para aquela época, mas quem acompanhava não se esqueceu e, mais tarde, outros conhecedores e pesquisadores de música pop, que conseguiam ganhar algum espaço a, apresentaram também programas inesquecíveis. Programas de rádio foram uma das brechas por onde começou a se introduzir uma visão diferente, no mínimo, mais atualizada em relação à música pop. O que prevalecia era o esquema o que toca na FM vende, o que é vendável toca na FM. um circuito restrito e restritivo porque deste modo só se tinha acesso às babas do hit parade. mas nem no Brasil poderia ficar imune ao fervilhante panorama internacional da música pop do começo dos anos 80.

Atrasado, de forma muitas vezes ou equivocada ou precária, o rock começou a existir no Brasil. Houve um momento inicial que se começou a ouvir rock, tocar rock, falar de rock - recentemente, e de maneira mais evidente de um ano para cá, o rock passou no fundo dos quintais dos bairros das grandes cidades para o mundo dos negócios. Se os empresários da área ignoram solenemente este momento inicial, não puderam - e nem quiseram - continuar ignorando e, assim, bandas que em 84 estavam nos subterrâneos, hoje estão lançados por gravadoras e tocando no Chacrinha.

Não é de espantar, então, que Kid Vinil defina a programação da 89 FM desta forma:" A 89 é uma rádio de rock'n roll." E que Mauro Borba defina a Ipanema como: "A rádio que inovou a linguagem FM de Porto Alegre."

E nem pura coincidência que Alex Mariano, da Fluminense, defina de forma muito semelhante: "uma rádio especializada em rock". A diferença reside no momento em que elas surgiram: enquanto a 89 FM surge no fim do ano passado, quando o público de rock já é algo de que não se pode duvidar da existência, a Fluminense e a Ipanema surgiram com um dos elementos que tornaram esta existência possível.

O notável, no caso da 89 Fm, é que um mesmo grupo empresarial, que é responsável pelo modelo Rádio Cidade, a matriz das FMs, tenha resolvido se lançar neste empreendimento. Na verdade, mão se trata de um empreendimento tão arriscado assim, uma vez que a Fluminense, a Ipanema e a 97 já passaram pela prova da duração e da audiência. Como explica Luis Fernando Magglioca, coordenador da 89, "é um comércio é uma indústria, mas com a preocupação de produzir coisas com qualidade". O que há em comum entre as emissoras que as distinguem das outras - é esta intenção de renunciar ao grande público e atingir um segmento menos numeroso, até então sem opção.

Aqui no Brasil, está é uma postura relativamente nova, que revitaliza não só as emissoras de rádio como tudo que está ligado à música pop. No esquema tradicional, se as novas bandas quisessem sair do gueto - e divulgação em rádio é decisivo para isto - tinham de se submeter ao estreito molde do comercializável. Com as novas rádios aconteceu e continua acontecendo de forma um pouco diferente. As rádios tocavam demo-tapes de bandas desconhecidas, divulgavam bandas internacionais que as gravadoras nem sequer sonhavam em lançar - o que fez com que as gravadoras parassem de sonhar e se aventurassem a minimizar um pouco o comentado atraso brasileiro. Este esquema não vai dar disco de ouro para nenhuma banda dos porões nacionais ou internacionais; apenas pode modificar um pouco este feed back divulgação lançamento.

Grande público quer é programação de FM - uma recente pesquisa da Folha de São Paulo mostrou que quem ouve FM gosta do que ouve. O que quer este segmento específico que a 89 vem atingindo está sob o título de rock, mas não é só isso. Rock é o rótulo que unifica e identifica e, além disso, informação, atualidades, experiências e inovações. como se não bastasse, como observa Kid Vinil, "lá na 89 eu posso tocar os estilos de rock que eu gosto, mas rock é uma coisa super ampla".

A música pop é um universo em plena expansão, a necessidade de atualização é constante e, pro outro lado, é impossível fazer uma programação que agrade de maneira geral. Vai alguém mais exigente, um um punk que não suporte os Smiths, que não tenha paciência para The Cure. Os programas especiais sempre foram opção para gostos mais definidos, colecionadores, curiosos insatisfeitos, aficionados em um único gênero - heavy, progressivo, reggae, funk, a lista aí é bastante extensa. Cercados pelos sucessos da cidade ou pela sisudez estéril das rádio educativas, sempre se dá um jeito para introduzir raridades, novidades, pesquisa, novas linguagens.

"O rádio é uma atividade ligada à música, que pode ser encarada como pesquisa e sistematização. Se você encara o rock como arte, este trabalho de organização é fundamental", assim Thomas Pappon explica seu interesse em rádio. Thomas foi responsável pela "História do Rock no Brasil", um programa que foi ao ar em 84 e veio preencher a falta de informações sobre o rock nacional das décadas passadas.

O projeto mais ambicioso nesta linha documental foi o Novo Testamento, uma enciclopédia do rock de A a Z - programa criado por Caíto Camargo que foi levado adiante por Artur Veríssimo no ano passado na Rádio USP. Recentemente, a USP mudou toda sua programação, acabando com este programa e com outros como o "Rádio Paradiso" produzido por Fernando Zarif e Artur Veríssimo. Fernando afirma que "foi o mais radical em termos de linguagem. Era um programa mais informativo, trabalhava com outro tipo de informação. Entrava de tudo: música erudita contemporânea, música de nacionalidades exóticas, ruídos, I Ching e, por que não, rock de vanguarda". Arthur continua na FM 97 com o "Bebop Woogie", "uma espinha dorsal da música pop" e Thomas com o "Rock Progressivo", na Rádio Cultura AM.

A lista é evidentemente muito maior, mas muitos deles que iam ao ar no ano passado, por "mudanças de programação" e desculpas ao gênero não duraram muito, como o "Blue Moon", do Fernando Naporano, e o "New Beat", do Kid, ambos na Antena 1. Falando do presente, a estréia mais recente é "Rádio Amador", produzido por ninguém menos que a Rita Lee, um programa que leva a marca do seu humor particular - bem diverso da simpatia compulsória e irritante dos locutores habituais de FM.

Este programas especiais, dos quais aqui só há uma pequena mostra, mais uma programação básica e diversificada e de melhor qualidade são os ingredientes desta nova receita de rádio. Arthur Veríssimo resume enfaticamente: "A rádio brasileira está numa situação revolucionária." Ênfase demais talvez. Por enquanto, podemos acordar com a nossa banda nacional predileta ou dormir com as mais novas da vanguarda européia. Se continuarem dando certo as experiências - como vem acontecendo no Rio, em Porto Alegre e agora também em São Paulo - resta esperar que apareçam novas rádios. Nunca é demais lembrar que ainda falta muito para o Brasil sair do marasmo cultural que lhe foi imposto.

Por Bia Abramo

(Revista HV - ano 1 - número 1 - junho de 1986)

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