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A Rádio Rock e os 28 anos que mudaram o mercado radiofônico

Em uma série de 28 episódios, a 89 FM tentar contar sua história por aqueles que a viveram



Já está no ar a série de programas “Vinte e oito anos que mudaram o rock”, produzido e exibido aos domingos pela 89 FM de São Paulo. Tão pretensioso quanto seu título é o fato de a atração querer traçar um paralelo entre a história deste gênero musical e a trajetória das emissoras jovens baseando-se apenas nos causos da “Rádio Rock”.

À primeira audição, dá-se a impressão de que se trata de um documentário radiofônico. Está longe disso. Afinal, falta-lhe uma apuração mais “científica” das informações ali apresentadas. Vale mesmo pelo depoimento dos pioneiros da estação, quando esta se transformou em FM “roqueira”: Everson Cândido, José Roberto Mahr, Ricardo Mendonça, Kid Vinil e Luis Fernando Magliocca – autor intelectual da “proeza”. Os interlocutores do apresentador e “biógrafo oficial” da 89 Ricardo Alexandre – um tanto quanto perdido na condução das primeiras edições – revelam informações preciosíssimas que valeriam mais a pena ser incluídas em um trabalho acadêmico sobre o Rádio mais abrangente e aprofundado.

É interessante ouvir como o grupo Jornal do Brasil (responsável pela programação e comercialização da Rádio Cidade paulistana) se associou à Rede Autonomista de Rádio (detentora da concessão) transformaram a Pool FM – com programação calcada no estilo conhecido por “TOP 40”, em uma emissora de “rock and roll”.

Em sua versão sobre o início de tudo, Magliocca nega que a nova “joint-venture” fora criada para “combater” a então “97 Rock Station”, de Santo André, na periférica região do ABC Paulista. O radialista também afirma que o modelo da rádio fora formatado por ele e sua equipe. Como não são mostrados ou indicados documentos que comprovem estas afirmações, há de se confiar na memória dos depoentes, que é tão falha quanto podem ser falhas as lembranças de uma aventura na comunicação após quase 30 anos.

Era evidente que 89 estreou sob o signo do mercado radiofônico cada vez mais significativo e profissionalizado nos anos 1980. A maioria das técnicas ali desenvolvidas para que a rádio se diferenciasse das demais podem ter sido profundamente “inspiradas” em emissoras alternativas da época como a niteroiense Fluminense FM, a gaúcha Ipanema FM, as paulistanas Eldorado FM, Cultura FM e USP e até mesmo a arquirrival FM 97. 

O melhor de tudo é que o ouvinte interessado pode conferir a série na página da rádio no Soundcloud. Os primeiros cinco episódios (de 1985 a 1989) já estão disponíveis, inclusive para download. Infelizmente seus produtores não resgataram ou não conseguiram resgatar vinhetas, aberturas, trechos de programas ou da programação e de todas as peças sonoras da época, sobretudo dos “primórdios” da “Rádio Rock”, para melhor ilustração dos fatos. Não se sabe se foi por descuido no planejamento ou se a 89 FM, na prática, não se importa com sua história, a exemplo das maiorias das estações de rádio brasileiras.

Em vez disso, optaram por tocar as músicas preferidas dos ouvintes a cada ano, no formato “as 10 mais”. Entretanto a votação – feita pela internet – teve como eleitores ouvintes atuais, o que traz uma certa imprecisão na enquete. Podemos confiar na memória dos ouvintes também? O sentimento que o eleitorado sente ao ouvir determinado “hit” é o mesmo de quando ele a ouviu 15, 20, 25 anos atrás? Teria sido mais interessante esta seleção musical ter sido feita com números e registros da época.

Pelo menos uma afirmação pode ser considerada a mais precisa deste trabalho: comercialmente, a 89 FM foi bem sucedida, independentemente do que tenha acontecido para que seus proprietários decidissem tirá-la do ar e apostar num novo formato quase 20 anos depois e então retornar à “Rádio Rock”.

Em um raro momento do rádio brasileiro, a 89 FM conseguiu aliar um eficiente projeto comercial rentável com um formato de programação pouco comum, que não se preocupava necessariamente com a liderança na audiência “a todo custo”, mas sim em conquistar um público fiel, crítico, participante e ligado no seu cotidiano.  A “Rádio Rock”, nos seus primeiros dez anos pelo menos, provou que boa qualidade de conteúdo não é – nem nunca foi – inimiga da grande audiência, muito menos de bom faturamento, que são o que move a mídia Rádio.

É bem verdade que a realidade de mercado que criou a 89 FM, em 1985, é bem diferente da dos dias de hoje. Hoje ele é altamente profissionalizado e a concorrência é infinitamente maior, com a chegada da internet e outras formas de distribuição e divulgação da música. Estaria a 89 FM fazendo jus a seu slogan como fora nos quase 20 anos em que ficou conhecida nacionalmente como "A Rádio do Rock"? Muita coisa mudou, inclusive sua principal rival, que resolveu apostar em outro segmento musical e, aparentemente, se tornou líder dele. Futuramente, pretendo discutir essa realidade atual. Um abraço e boa audição.

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