domingo, 30 de março de 2008

A Morte Anunciada do Rádio AM no Brasil

por Edemar Annuseck
do site Caros Ouvintes


A preocupação com o rádio AM brasileiro não é só minha. No e-mail, no orkut, no blog recebo diariamente referências a respeito da situação do rádio AM em nosso país. Estão querendo “matar” mesmo o rádio AM.

Um dos e-mails cita até que o rádio AM vai acabar, como que prevendo o pior. Não só não concordo com essas afirmações como vou mais longe. “Tem muita gente interessada em acabar com o rádio AM, isso parece se confirmar cada dia. É o caso dos próprios fabricantes de rádios para carros e portáteis que não sei por que preferem produzir rádios só com a freqüência FM. Rádios com Ondas curtas então nem falar”. E para mostrar que as críticas e alertas não são exclusividade minha, transcrevo hoje comentário postado pelo jornalista Sérgio Guimarães, grande companheiro de outras jornadas e correspondente de várias emissoras brasileiras no Rio de Janeiro. Sérgio é o repórter mais bem informado dentro da CBF.

Descaso

O comentário de Sérgio Guimarães foi publicado na quarta-feira (26) no site www.papodebola.com.br do grande Edu César de Porto Alegre, o namorado titular de Singklews Markiueubsw, estrela maior da música pampesca.

“Eu precisei comprar um aparelho de rádio AM/FM com som digital para servir de apoio nas transmissões dos meus jogos e eis a surpresa: andei pelo heterogêneo Centro do Rio, pela moderna Barra da Tijuca, bairro dos shoppings e pela tradicional Tijuca numa peregrinação sem fim. Em todas as lojas que eu entrava a resposta era sempre a mesma: “só temos MP3, MP4 ou rádio FM”. Por fim, consegui a muito custo e a muita procura achar um bendito aparelho. Foi só depois dessa procura que me lembrei da matéria de um blog de comunicação, onde alguns jornalistas, inclusive de Rádios AM, afirmavam que não existe mais rádio AM, ao menos em cidades grandes como Rio e São Paulo. Segundo eles, os novos ouvintes não foram educados para aprender a ouvir AM e a tecnologia também não evoluiu para essa faixa de onda.

Na época, estas afirmações me deixaram preocupado e um tanto indignado, pois eles, como eu, também trabalham em AM e deveriam, ao menos, fazer um esforço mínimo para mudar esse quadro e não simplesmente aceitá-lo de forma tão pacífica. Hoje, mantenho minha indignação com os colegas, afinal eu amo o rádio AM e não aceito a degradação que o veículo vem sofrendo nos últimos anos.

Preocupante

Continua a narrativa de Sérgio Guimarães. “Hoje realmente, de um modo geral, os jovens não ouvem rádio e AM muito menos. A garotada do século XXI infelizmente não ouve rádio, não lê livros e nem jornais, e só anda com os benditos MP3 e fones nos ouvidos. Por isso, eles não sabem de quase nada que fuja do seu universo virtual, egoísta e restrito, e por isso também mal sabem o que ocorre no Brasil e no mundo, mal sabem ler e escrever, e acabam por diminuir as demandas por aparelhos de rádio AM, livros e jornais.

Hoje o rádio vem sendo sucateado na sua filosofia e perdendo espaço para grupos religiosos, que, com seu poder financeiro, arrendaram várias das mais tradicionais rádios do Brasil, deixando desempregados seus funcionários e órfãos seus ouvintes, que, talvez desiludidos, tenham deixado um pouco de lado a paixão pelo rádio.

Sintonia e gênios

Sérgio Guimarães aborda outro aspecto crucial que o rádio AM de hoje enfrenta. “Outro problema do rádio moderno diz respeito à dificuldade que o rádio AM tem para pegar bem nas grandes cidades, como Rio e São Paulo, devido à propagação das mais variadas ondas eletromagnéticas da vida atual.

Há ainda, ao meu ver, o mais grave dos problemas. Hoje em dia, devido a todos os fatores anteriores, existe uma escassez muito grande de boa mão-de-obra no rádio, pois houve pouca renovação em vários setores, como por exemplo na área de operadores de externa e até mesmo de áudio. Há também pouquíssimos novos repórteres de rádio surgindo, bem como produtores, pois a garotada hoje usa o rádio de trampolim para a TV, assessoria e sites da internet, que pagam mais, o que não permite aos jovens sua maturação profissional no veículo e, conseqüentemente, sua especialização. Essa falta de gente capacitada no rádio infelizmente tem trazido para as emissoras uma “praga moderna”, que vem atacando as rádios brasileiras, com raras e louváveis exceções, onde graças a Deus estão incluídas as emissoras em que eu trabalho Brasil afora.

A praga moderna do rádio foi a criação em cativeiro dos “novos gênios”, grupo de tecnocratas do rádio, profissionais que supostamente deveriam deter conhecimentos técnicos sofisticados e específicos do veículo rádio, mas que na realidade, paradoxalmente, não passam de reles ex-focas, que saíram das redações dos jornais direto para as editorias das maiores rádios AM do Brasil. Essa nova raça de “radialistas” muitas vezes sequer pegou num microfone ou fez uma reportagem ao vivo, mas com arrogância e despreparo vêm fazendo um esforço enorme, mesmo que inconsciente, para acabar com o rádio AM.

Os novos gênios do rádio querem soluções rápidas e imediatas para problemas sócios-políticos-econômicos e culturais, que se arrastam há anos. E para tal, a melhor solução dos “gênios” é globalizar o rádio. A solução é acabar com tradições, acabar com o tripé “música, esporte e notícia”, acabar com o regionalismo e com toda antiga ordem das coisas. A ordem é renovar e, para tanto, joga-se fora antigos conceitos e velhos profissionais, como se tudo o quanto existia antes nunca tivesse sido bom.

A nova ordem dos “gênios” é fazer do rádio uma espécie de Internet auditiva, como se isso, por si só, fosse a solução milagrosa para o futuro do rádio”.

Os absurdos

Completando sua análise o Sérgio diz. “Na prática, e falando apenas como mero ouvinte, juro por Deus que nunca vi e nem ouvi tanta barbaridade pelas ondas do rádio. São repórteres, locutores, redatores e editores lendo, escrevendo e reescrevendo o que sai na Internet e se prestando ao papel de respondedores de “chats”, como se fossem telefonistas modernos do novo rádio. Isso quando a coisa não cai na vulgaridade e no chulo, novos ingredientes que vem “apimentando” com força total as programações dos novos gênios, inclusive nas transmissões esportivas. Estas então estão sendo invadidas pelos Djs e Mcs, que estão sendo colocados ali pelos “gênios” como animadores de jornadas disfarçados no papel de âncoras, para o desespero, tenho certeza, de nomes como Waldir Amaral, Jorge Curi, Pedro Luiz , Fiori Gigliotti e Oswaldo Faria, que lá do Céu devem estar chorando lágrimas de sangue, vendo seus legados transformados num circo dos horrores. Logo eles, coitados, que tantas inovações importantes trouxeram para o nosso amado rádio, e agora têm que assistir passivos a corruptora globalização transformar o rádio num mercado livre, onde se pode tudo, menos se ouvir um rádio novo, mas que respeite a tradição, o individualismo, a cultura, a ética e a necessidade de quem ouve - isso é claro, sem deixar de lado a prestação de serviço e o companheirismo, marcas primordiais do rádio, principalmente o AM.
Vou ficando por aqui, torcendo para que o melhor jargão do rádio, criado, é claro, por São Waldir Amaral, que dizia: “você, ouvinte é a nossa meta”. Pensando em você é que fazemos o melhor" seja aprendido pelos novos gênios e repetido com louvor, pois o que é bom tem que ser perpetuado.

Captação

A coisa está tão difícil para o rádio AM que como diz o Sérgio Guimarães, que até os fabricantes de rádio ajudam a complicar. Vou mais além. Não só os fabricantes de rádios, como os das antenas para os automóveis também. Hoje os carros já saem de fábrica com antenas internas - um risco preto no vidro da frente ou no traseiro - outros com antenas de pequeno porte na parte superior da lataria que só captam bem as emissoras em FM. Aliás , antenas só para rádio FM mesmo. Quando passei pela Rádio News em São Paulo (2002-2003) senti o drama. A viatura que utilizávamos para o esporte não conseguia sintonizar a rádio com 100 KW de potência na Avenida Paulista (onde se localizavam os estúdios) e nas transversais.

Lembrei das antigas antenas Truffi e Olímpus. Pedi ao operador de externa, Nilton Lopes, o Cabeção que procurasse por uma dessas antenas. Certa manhã me ligou da Zona Leste dizendo. “Chefe, achei uma antena. Custa R$ 45. Quer que coloque”. Mandei colocar. A partir daquele dia o rádio da viatura da News passou a sintonizar todas as rádios paulistanas na mais paulista das avenidas e por toda grande São Paulo.

Ninguém a favor

Pra fechar o assunto e para que os senhores, senhoras, jovens, senhoritas e o respeitável público como dizia o saudoso Oswaldo Moreira na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, saibam. Descobri a agência que cuidava das contas do fabricante Olimpus.

Fui recebido por Ricardo Natale na agência Gas da Rua Arizona, 4º andar, próximo a Rede Globo de Televisão, na zona sul, em São Paulo. Propus uma campanha para divulgação da antena o que contribuiria para a comercialização, e para a salvaguarda do Rádio AM do Brasil. Isso foi em 2003. Até hoje estou esperando uma resposta da agência.

Até a próxima.


Visite: www.edemarannuseck.blogspot.com

4 comentários:

Marlon disse...

Lembro de ter lido, em algum lugar, uma matéria que mostrava uma declaração do Roberto Nonato, nesta mesma linha. Mas será que o rádio AM está realmente acabando nas grandes cidades? Eu não posso pensar que rádios como a Bandeirantes, a eldorado e a Jovem Pam simplesmente não tem mais ouvintes. Isso não significa que eu não concorde com o que o Edemar e o Sérgio falaram, só estou questionando se a coisa já está tão complicada assim. Por exemplo, uma fonte segura me disse que o marketing na rádio eldorado AM anda bem agitado, e os anunciantes não parecem estar diminuindo demasiadamente nas rádios de notícias AM. A rádio Globo AM creio que tenha até mais de um ponto de audiência medida, o que vai meio contra os argumentos, muito justificados, do Edemar. E eu concordo com ele, mas meus próprios argumentos parecem estar sendo colocados em causa desta vez.
Quanto a perda das características culturais do rádio, o Rio Grande do Sul parece ser um estado que ainda tem sua mídia bem voltada para os acontecimentos de lá. Não atoa profissionais como José Calil, que me falou isso pessoalmente um dia, e ouvintes como eu, pensam que o rádio lá tem uma qualidade imensa.
Marlon

Marcos Lauro disse...

Marlon, foi aqui mesmo nesse blog em que você leu a declaração do Nonato, ouvida numa palestra que ele deu na Univ. Anhembi Morumbi.

Sinceramente, não acompanho muito os movimentos do AM. Sintonizo pouco a faixa e quando o faço é principalmente por causa da cobertura esportiva e do noticiário mais completo e elaborado, sem a urgência e o desespero dos tais vinte minutos.

Em termos de criatividade, ainda acho que o FM está pior. Se esse for o critério, o FM acaba antes.

Anônimo disse...

não disse nenhuma novidade o sr. edemar. Apenas lamentou-se, como tantous outros.
O AM não acabou, apenas precisa buscar a criatividade, pois todos sabem que a parte jornalistica e futebolistica vai muito bem nesta faixa. Além disso, o que temos de novidade? o ultimo grande frission no AM de São Paulo, por exemplo, foi em 2001, quando da mudança do Padre Marcelo para a Globo e que mantém indíces de audiência impressionantes até hj. Tá faltando alguma coisa nova, que saia do blablabla infernal de muita rádio. Um bom programa de humor, um bom programa de auditório, resgatar bons textos para dramatizar, enfim, o passado também pode inspirar.
Alessandro Pereira

Anônimo disse...

Nem sei o que vou fazer com meus 118 aparelhos de rádios, como sou um colecionador que prima por raridades, todos meus exemplares não tem FM somente AM.OC, OT. e todos funcionam, meu passatempo e por pra funcionar de um por um. com o final da transmissão AM. Alguem pode me dizer, se meus aparelhos serão silenciados?(Jordan Ibiapina-Imperatriz-ma)