segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Cobertura "meia-boca" da São Silvestre expõe o crescente abandono das transmissões esportivas no Rádio

Largada da corrida de São Silvestre, na Avenida Paulista, em São Paulo: emissoras abandonam a transmissão do evento (Foto: Gazeta Press)
A julgar pela corrida de São Silvestre realizada na manhã deste domingo , as emissoras de rádio estão desistindo a olhos vistos de transmitir eventos esportivos. Apenas a Rádio Bandeirantes acompanhou em tempo integral o evento. Ainda sim, foi uma cobertura muito aquém do que a estação costumava fazer pouco tempo atrás. Foi uma transmissão bem "meia-boca", mas pelo menos a emissora líder do Grupo Band Rádios cumpriu com a sua obrigação.

As emissoras do Sistema Globo de Rádio - CBN e Rádio Globo - mal tocaram no assunto, nem ao menos mandaram um repórter sequer para a Avenida Paulista. E pensar que eles já tiveram um grande jornalista chamado Jorge de Sousa que transmitia sozinho a São Silvestre, mesmo que em "off tube", de uma cabine com tevê, bem na entrada da redação da CBN.

A Rádio Jovem Pan com quem o ouvinte sempre podia contar com a transmissão entusiasta e vibrante de Wanderley Nogueira parece que desanimou de vez. A Transamérica e a Capital nem ao menos fizeram menção fora de seus programas esportivos.

"Pata de elefante" - É bem verdade que este evento perdeu muito de sua força quando deixou de ser realizado na noite do dia 31 para o dia 1º de janeiro. Há quem diga que a responsável pela desastrosa mudança fora a Rede Globo, que começou a transmitir a corrida ao vivo para todo país, em 1989. E exigiu da organizadora, a Fundação Cásper Líbero - dona da TV Gazeta, das rádios Gazeta AM e FM, do portal GazetaEsportiva.net e da Faculdade Cásper Líbero - que passasse a São Silvestre para mais cedo porque seria mais fácil a captação de imagens com a luz do dia.

Entretanto a festa da virada do ano com artistas contratados pela Globo foi mantida no horário noturno, sendo realizada simultaneamente em outras capitais brasileira para que seja tudo transmitido ao vivo, demonstrando a o poder e hegemonia da marca. Não é à toa que a Rede Globo há anos tem a fama de ser "pata de elefante" da mídia nacional. Mesmo nos tempos atuais em que sua força já não é tão grande como outrora, graças à internet e as novas plataformas digitais, parece que essa "estratégia" persiste. Ainda bem que ela não consegue se impor dessa forma no mercado radiofônico. Basta ver o que está acontecendo no Sistema Globo de Rádio nos últimos anos.

Automobilismo em baixa - Com a exceção da Bandeirantes, há um bom tempo que o rádio simplesmente parou de acompanhar as provas de automobilismo, sobretudo a Fórmula 1. O rádio está, infelizmente para os entusiastas do ludopédio, deixando de forma leniente a tarefa desse tipo de cobertura para a televisão, sobretudo a TV por assinatura. O que os diretores e donos de rádio não percebem é que, ao fazer isso, estão, na verdade, entregando um verdadeiro "filé mignon" para as minúsculas - porém sempre promissoras - rádios esportivas "online" que, se tivessem mais "poder de fogo" comercial, mais estrutura e um pouco mais de audiência, já estariam com certeza abocanhando parte deste mercado radiofônico, cujas grandes emissoras insistem em deixar escancarado para quem quiser lhe tomar das mãos.

Economizando mal para ter menos gastos - "Gigantismo" tem dessas coisas. As emissoras de rádio "off-line" tem uma estrutura tão grande, mas tão grande que, em vez de investir em material humano, preferem trabalhar com o mínimo de profissionais, achando que vão conseguir entregar um produto de alta qualidade com menos gente produzindo. Já estão até colocando produtores de conteúdo para também trabalhar ao mesmo tempo em funções operacionais, como se quisessem que seus pobres funcionários "assobiassem e chupassem cana" ao mesmo tempo, como cantava Benito di Paula no Rádio dos anos 1970.

É como se eles quisessem provar que qualquer um pode ser operador de áudio, editor, locutor, repórter, comentarista, acumulando funções ou sem ter o preparo adequado. E o campo de provas parece ser o jornalismo esportivo. Certamente devem achar, em sua maioria, que é uma atividade radiofônica de menor importância, logo, o que se fizer está bom. Vale até fazer a chamada transmissão no "tubão", com o narrador e o comentarista bem ao ladinho do "repórter de campo", que faz seu trabalho baseado nos "replays", "tira-teimas" e demais informações que lhe chegam pela tela da TV por assinatura ou mesmo pela internet. Gostaria de saber o que uma grande rádio consegue economizar com essa "precarização" da própria atividade.

Outras fontes de renda - É bem verdade que uma boa parte das emissoras não vive apenas da venda de espaço publicitário em sua programação. Algumas são usadas prioritariamente para divulgar as demais marcas de seu proprietário e de outros empreendimentos, sendo eles lícitos ou não. Não importa. O que vale é a satisfação do "ouvinte-cliente" e, depois, do "anunciante-parceiro". O resto é pura encheção de linguiça acadêmica.

Que 2018 traga juízo e sabedoria a esse povo que tem como responsabilidade dirigir os destinos da nossa radiodifusão. Não será difícil, se souber angariar o talento e a criatividade de seus colaboradores, a parceria de seus anunciantes e mantenedores e a cumplicidade de seus ouvintes.

Um comentário:

Unknown disse...

É triste,chega a ser um absurdo a precarização técnica da Radio Bandeirantes. Como ex-sonoplasta (minha primeira profissão com registro em carteira), sempre me chamou atenção o esmero e a qualidade técnica da RB no que DIZIA respeito a ausência de erros, lacunas, brancos, falgas, enfim... Hoje, infelizmente, isso é coisa do passado.

Após a instalação de uma mesa de som e da transferência da central técnica para dentro do estúdio, além da lamentável (e evidente) dispensa de excelentes profissionais, a RB virou um show de falhas, mancadas, tropeços, uma lástima...

Saudade dos tempos de CARBONI... Thays Freitas infelizmente chegou para apavorar a galera.