quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Que profissionalismo?

Durante um seminiário de jornalismo esportivo organzado pelo Comunique-se, o jornalista Ricardo Capriotti se mostrou favorável à cobrança de diretos para que as emissoras de rádio transmitam jogos de futebol. Para ele, segundo o site, "isso traria profissionalismo ao mercado". A notícia não avança muito mais do que isso, mesmo assim cabe a pergunta: que profissionalismo?

Nunca é demais lembrar que em 2008, o Atlético Paranaense desejou cobrar uma taxa das emissoras do Paraná. Á época, o pacote foi fechado em R$ 486 mil e englobaria 38 partidas até o final daquele ano. Para transmitir partidas de forma individual, a taxa seria de R$ 15 mil.

Ouvida na época pelo Rádio Base, a assessoria de imprensa da Rádio Capital informou que não tinha condições de pagar o que era pretendido pelo clube. Após muita discussão, a idéia foi deixada de lado. Por enquanto.

Se uma medida como essa passasse a ser colocada em prática, haveria o risco de que muitas emissoras deixariam de ter a cobertura de futebol em sua programação, desempregando profissionais.

Se é para profissionalizar o rádio esportivo, por que não adotar medidas simples, que recuperem a credibilidade do veículo. Uma delas: abandonar a prática do off-tube. Se isso não puder ser feito, pelo menos que se transmitam as partidas onde possa ser garantida a presença de narrador e repórter no estádio. Seria honesto com o público.

Outra medida que talvez pudesse ajudar: as emissoras que disputam posições intermediárias poderiam muito bem dar enfoque ao segundo jogo em importância da rodada. Exemplo: domingo passado tivemos, ao mesmo tempo, os jogos Palmeiras x São Paulo e Mirassol x Santos. Digo sem medo de errar que 99% delas priorizaram o clássico paulista. Nenhuma ousou em fazer o jogo do Santos. "Passou na tv", podem dizer alguns, mas a transmissão pelo rádio seria uma ótima opção para quem não gosta do blábláblá de profissionais da televisão como Cléber Machado ou Neto, só para ficar nesses exemplos.

E uma vez que estamos no assunto, nunca é demais levantar outra distorção: existem emissoras ou equipes esportivas que transmitem o mesmo conteúdo nos canais de AM e FM. Nessas ocasiões em que há partidas importantes no mesmo horário por que não dividir as frequencias? Por que a Transamérica não pode transmitir uma partida, enquanto que a Record faz outra? A mesma pergunta se aplica a Bandeirantes, CBN, Jovem Pan e Eldorado/ESPN.

A vinda do tal profissionalismo para o rádio esportivo não passa pela cobrança de direitos, mas pela adoção de medidas mais simples.


*

UPDATE (25.02 - 11h00) O Ricardo Capriotti fez sua réplica no sistema de comentários do blog. Vale a pena trazer aqui pro post para dar mais visibilidade à sua resposta e ajudar no debate.

Prezado Rodney,

Permita-me fazer algumas observações no seu texto.

1) Não se deve usar o exemplo do Atlético-PR quando se fala em cobrança de direitos para emissoras de rádio. Aquela era uma tentativa isolada de um clube de tirar proveito da prática sem oferecer nenhuma contra-partida. Se a cobrança vier a acontecer, quem deve se posicionar a respeito disto é a CBF, Federaçãoes ou o Clube dos 13.

2) Quando falo em profissionalismo, digo que deve haver uma relação profissional entre os organizadores e as emissoras de rádio. Hoje, as partes acreditam que fazem um favor. As emissoras acreditam que fazem um favor ao espetáculo ao transmitir e divulgar os campeonatos. E os organizadores acreditam que o favor é da parte deles, que permitem o uso do espaço em estádios e a possibilidade de transmissão sem cobrar nada. Algumas décadas atrás, com uma mídia bem mais restrita, esta era uma relação aceitável. Porém, vivemos a era da relação comercial. Ao pagar para transmitir, as emissoras de rádio poderão exigir condições iguais ou semelhantes às da TV. Poderão determinar melhores condições nas cabines dos estádios - que são vergonhosas -, um jogo exclusivo para o rádio, entrevista exclusiva com os jogadores, etc.

3) Isto não significa dizer que as emissoras serão obrigadas a pagar a mesma coisa que as televisões. Qualquer um sabe que o poder econômico destes veículos não é igual e emisoras de rádio teriam um valor diferenciado, inclusive para emissoras dos grandes centros e squelas do interior.

4) É esta relação que existe, por exemplo, na Copa do Mundo. Quando se paga para transmitir um mundial de futebol a empresa obtém automaticamente uma série de vantagens, como posição decente de transmissão, estacionamento e som ambiente dos estádios e áudio com as entrevistas de jogadores e técnicos para poder transmitir via off-tube os jogos de outras seleções diretamente do centro de imprensa. E isso poderia ser usado por aqui também, com as emissoras recebendo o som ambiente e as entrevistas coletivas do final de todos os jogos, abrindo a possibilidade de transmitir com qualidade quantos jogos esta determinada emissora quiser, ou seja, ao invés de desemprego teríamos a chance de um aumento de trabalho para os radialistas.

5) Eu sou um apaixonado pelo rádio, minha origem no jornalismo esportivo. Esta é minha opinião. Assim como respeito aqueles que entendem o contrário do que penso, peço que compreendam que mais importante do que isto que escrevo é fomentar o debate em torno deste e de outros asuntos importantes que fazem deste veículo de comunicação a maravilha que é ao longo de tantos anos.

Abraço e sucesso.


UPDATE (28/11 - 00h00) Vou registrar aqui outras repercussões deste post. O Marcelo Soares, do blog Nas Ondas do Radio Web publicou meu comentário e a réplica de Capriotti na íntegra. Alem disso, ele comentou:

"Como postei aqui a matéria do comunique-se, achei por bem postar também a opinião do amigo Rodney Brocanelli sobre o assunto e a réplica do "pai da matéria" Ricardo capriotti. Ficam aí as opiniões, a visão de quem entende do assunto, sugestões coerentes de ambos os lados (embora defendo o argumento do Brocanelli) mesmo porque pagar para transmitir futebol aqui em minha cidade (Itabuna-Ba) e interior baiano, seria o fim das equipes esportivas do Rádio. Sem ter que desembolsar para transmitir, as emissoras de Rádio enfrentam grandes dificuldades financeiras, e tendo que pagar, seria o fim. Mas, ficam expostos os argumentos que nos fazem refletir, pensar, opinar, discutir e particulamente torcer para que isso não se torne uma realidade por amor ao radio esportivo do interior e talvez capital baiana".

O camarada Rener Lopes, de Brasília, também republicou o texto em seu blog com uma recomendação: "Reflita e pense sobre este assunto".

O comentarista Mauricio Capela, da equipe Expressão da Bola, também se manifestou sobre o post durante a jornada esportiva que acompanhou Santo André x Portuguesa, partida válida pelo campeonato paulista. Ouça no player abaixo.



UPDATE (28/11 - 16h00) O Edu Cesar, do Papo de Bola, entrou do debate e deu algumas sugestões relacionadas aos direitos de transmissão pagos pelo rádio.

Um assunto que voltou à tona nestes últimos dias foi a questão de cobrança de direitos de transmissão pelo rádio. Atualmente, isto acontece em casos pontuais: a Copa do Mundo, a Copa das Confederações, Mundial de Clubes, Liga dos Campeões da Europa, Fórmula 1 e Jogos Olímpicos. Fora isso, transmite quem quiser quando quiser. Tentando chegar a um denominador comum tanto do que li do conviva Rodney Brocanelli no Rádio Base Urgente quanto da resposta do apresentador Ricardo Capriotti ao comentário dele, digamos que eu chegaria nestes pontos que talvez tornassem válida a ideia se executada:

1) A emissora compra os direitos de competição X e paga, talvez, o equivalente a 25% (é valor chutado tão somente, como mero ilustrativo) do seu faturamento mensal com a programação esportiva, para o organizador ficar com uma porcentagem para ele e repartir a maior parte entre os participantes do evento. E os clubes ficariam comprometidos a investir este valor pelas emissoras pago em melhorias para elas mesmas, como questão de cabines ou locais para trabalhar nas partidas, para possibilitar o trabalho da rádio no local da partida. Assim, a prática do tubo poderia, se não ser abandonada, ao menos bem suavizada.

2) Pelo direito à opção do ouvinte, estipular que as rádios que cobrem prioritariamente certo número times e operarem em duas frequências simultâneas, quando dois ou mais clubes atuem simultaneamente, façam um jogo completo em cada frequência - o que, no caso de São Paulo, onde essa história renasceu nos últimos dias, afetaria emissoras como a Bandeirantes, a Jovem Pan (considerando-se que isto valesse para sua FM não apenas nos domingos, mas em dias de necessidade de tal esquema), CBN, Eldorado/ESPN e Record/Transamérica.

São apenas ideias sugestivas que me correriam à cabeça diante do assunto, para estimular um debate a respeito do mesmo. Quem quiser colaborar, dê sugestões, diga o que poderia ser feito, o que estaria certo e errado no que falei, enfim, dar seu pitaco sobre o tema - até mesmo baseado no rádio esportivo da sua região.

2 comentários:

Ricardo Capriotti disse...

Prezado Rodney,
Permita-me fazer algumas observações no seu texto.
1) Não se deve usar o exemplo do Atlético-PR quando se fala em cobrança de direitos para emissoras de rádio. Aquela era uma tentativa isolada de um clube de tirar proveito da prática sem oferecer nenhuma contra-partida. Se a cobrança vier a acontecer, quem deve se posicionar a respeito disto é a CBF, Federaçãoes ou o Clube dos 13.
2) Quando falo em profissionalismo, digo que deve haver uma relação profissional entre os organizadores e as emissoras de rádio. Hoje, as partes acreditam que fazem um favor. As emissoras acreditam que fazem um favor ao espetáculo ao transmitir e divulgar os campeonatos. E os organizadores acreditam que o favor é da parte deles, que permitem o uso do espaço em estádios e a possibilidade de transmissão sem cobrar nada. Algumas décadas atrás, com uma mídia bem mais restrita, esta era uma relação aceitável. Porém, vivemos a era da relação comercial. Ao pagar para transmitir, as emissoras de rádio poderão exigir condições iguais ou semelhantes às da TV. Poderão determinar melhores condições nas cabines dos estádios - que são vergonhosas -, um jogo exclusivo para o rádio, entrevista exclusiva com os jogadores, etc.
3) Isto não significa dizer que as emissoras serão obrigadas a pagar a mesma coisa que as televisões. Qualquer um sabe que o poder econômico destes veículos não é igual e emisoras de rádio teriam um valor diferenciado, inclusive para emissoras dos grandes centros e squelas do interior.
4) É esta relação que existe, por exemplo, na Copa do Mundo. Quando se paga para transmitir um mundial de futebol a empresa obtém automaticamente uma série de vantagens, como posição decente de transmissão, estacionamento e som ambiente dos estádios e áudio com as entrevistas de jogadores e técnicos para poder transmitir via off-tube os jogos de outras seleções diretamente do centro de imprensa. E isso poderia ser usado por aqui também, com as emissoras recebendo o som ambiente e as entrevistas coletivas do final de todos os jogos, abrindo a possibilidade de transmitir com qualidade quantos jogos esta determinada emissora quiser, ou seja, ao invés de desemprego teríamos a chance de um aumento de trabalho para os radialistas.
5) Eu sou um apaixonado pelo rádio, minha origem no jornalismo esportivo. Esta é minha opinião. Assim como respeito aqueles que entendem o contrário do que penso, peço que compreendam que mais importante do que isto que escrevo é fomentar o debate em torno deste e de outros asuntos importantes que fazem deste veículo de comunicação a maravilha que é ao longo de tantos anos.
Abraço e sucesso.

LUCIMAR disse...

Como ouvinte exponho outra situação que gostaria que avaliassem.
Quando muitos não são favoráveis ao rádio em rede por acreditarem que mata a regionalização do mesmo, discordo, principalmente em relação ao futebol. Inúmeras rádios do interior vão aos grandes centros como Rio e São Paulo e deixam de transmitir as competições locais. Ora, isso é uma incoerência, vocês não acham? Se as rádios pagassem essas emissoras interioranas priorizariam as competições regionais.