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Lugar de repórter ainda é na rua

Eu acho que a gente já vem falando isso desde os primeiros dias deste blog. Mas é sempre bom ler alguém que comunga do mesmo ponto de vista e nem é do nosso convívio diário. Se formos chatos pelo menos estamos em boa companhia.


Pastelaria de notícias
Por Alvaro Bufarah, para o site Rádio Agência

Todas as empresas brasileiras falam de crise. Em todos os setores reclamam das quedas nos faturamentos. Nas empresas de comunicação, a situação não é diferente.

O pretexto é de que as verbas publicitárias caíram e, por isso, vários veículos de comunicação estão demitindo profissionais de diversas áreas. Mas acredito que este seja um bom momento para discutirmos os conteúdos e as formas de produção empregadas no mercado de comunicação.

Nos últimos 20 anos, estamos assistindo a redução incondicional de pessoal diante da digitalização de conteúdo. O expurgo se dá por vários motivos entre eles: a otimização de equipes de trabalho, a não adequação dos mais velhos às novas formas de produção, a necessidade de reduzir custos de qualquer forma e a facilidade de utilizarmos mão-de-obra barata dos estagiários, entre outras.

Na base desse processo, temos sérios problemas de gestão e a tradicional economia "burra", aquela que não faz uma análise de médio e longo prazo para a realização de cortes, nem a possibilidade de re-alocação de recursos de forma ponderada. Os resultados são: equipes desmotivadas, um canibalismo profissional (alta competitividade contra o trabalho em equipe), a desvalorização dos profissionais mais maduros por jovens dinâmicos (mas muitos sem conteúdo) e a queda brutal da qualidade do que produzimos para os veículos de comunicação.

Este quadro chega às vias da irracionalidade no corte de estruturas mínimas para o trabalho de diversos profissionais. Entre eles, cito o do repórter. Pode parecer romântico e piegas, mas acredito que uma boa redação tenha seus repórteres na rua. Ao contrário do que assistimos atualmente, onde poucas emissoras têm repórteres e as que mantém um quadro estável de profissionais, força para que eles produzam suas matérias via fone sem sair das redações. Algumas emissoras chegam ao ponto de retirarem até o motorista da viatura. Várias delas dão a chaves dos carros para que os repórteres dirijam até o local da pauta.

Com o avanço da Internet e das agências de notícias (on line) as emissoras passaram a apenas reproduzir o que é disponibilizado sem checar a informação ou adaptar a linguagem às suas audiências. Por isso, fazemos um jornalismo frio, com textos relaxados, erros de concordância e de dados. As informações locais, que realmente interessam aos ouvintes, ficam no plano da obrigatoriedade burocrática (cumprem tabela) e os ouvintes ficam com um pacote de notícias sem sentido, vomitadas de forma ilógica e sem critério de paginação.

Aproveito para distinguir conhecimento de informação. Segundo Peter Burke, o primeiro é quando pegamos os dados e damos a eles sentidos baseados em nossas experiências pessoais, adaptando estas informações às nossas realidades e balizando nossas ações. A informação é apenas o dado entregue às pessoas nas mais diversas formas e veículos.

Na realidade, os ouvintes são enganados de forma vergonhosa, pois têm a impressão de que estão sendo informados, mas estão sendo apenas atolados de dados sem nenhum link, sem a possibilidade de abstrair daquele amontoado alguma informação que realmente gere conhecimento.

Tudo isso, a pretexto de termos profissionais multimídia, rápidos, espertos e capazes de produzir a notícia em vários suportes diferentes no menor tempo possível. O que acabamos produzindo são profissionais estressados, mal informados e sem a menor possibilidade de refletir sobre o que estão fazendo. Ou seja, transformamos as redações em linhas de produção que lembram aquelas pastelarias onde o atendente grita ao cozinheiro: "Manda dois de carne, um de queijo e três de pizza". Transformaram notícia em um produto medíocre e sem função... E ainda querem que nós paguemos por esse conteúdo.

Não sou contra a tecnologia, nem contra o uso das agencias de notícias. Sou a favor de colocarmos os repórteres na rua para produzirmos mais conteúdos com qualidade a tal ponto de termos uma audiência qualificada que ouve o nosso produto porque sabe do seu diferencial e da importância de ouvi-lo primeiro, mas com a segurança necessária da investigação jornalística. Sou partidário do repórter como motor de uma redação e não como um fazedor de pastel.

Dica de Livro

Parte dos problemas enfrentados pelo radiojornalismo está na falta de uma visão sistemática do setor, tanto por parte dos empresários como dos profissionais de redação. Por isso, sugiro a leitura de "Fundamentos do Radiojornalismo" de Paul Chantler e Peter Stewart. Ambos têm uma boa experiência em radio, passando por várias emissoras do Reino Unido e principalmente pela BBC. O livro da Editora Roca é um manual importante para quem quer entender sobre radiojornalismo indo além das questões meramente técnicas, abrangendo formatos e dicas de como fazer bom conteúdo para emissoras noticiosas.


*Prof. Alvaro Bufarah, jornalista, especialista em política internacional, mestre e pesquisador sobre rádio. Coordenador da Pós-Graduação em Produção e Gestão Executiva em Rádio e Áudio Digital da FAAP. E-mail

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