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Eldorado adere à reengenharia de canais e sai do ar

Mais um dia trágico para a história do rádio em São Paulo. O site Adnews informa que "O Grupo Estado e a ESPN divulgaram comunicado em conjunto para formalizar a criação da Rádio Estadão ESPN, que entrará na estação em que atualmente está hospedada a Rádio Eldorado, nos FM 92,9 e AM 700 de São Paulo."

Poucos se lembram de que mais da metade dos radialistas da casa podem ser demitidos, a menos que algum diretor de bom senso os remaneje para outras unidades dos grupo. Além do mais fica a questão: pela lei, quando um radialista ou jornalista trabalha para mais de uma emissora de um mesmo proprietário na mesma cidade, ele tem o direito de receber um percentual sobre o salário, creio que 20%, por exercer dupla função.

Com a inauguração da "nefasta" "era do AM + FM" ou "reengenharia de canais de rádio" - para quem gosta de termos mais pomposos e eufemísticos - é de se supor que este regra continue valendo. Afinal, nada mais justo: CBN, Bandeirantes, Tupi (RJ), Globo (RJ), Itatiaia (MG), Gaúcha (RS), Guíaba (RS) e outras emissoras menos conhecidas se renderam à tentação de de ver a sua audiência e, consequentemente, também a sua receita duplicadas transmitindo a única programação em duas frequências simultâneas.

Então, não seria interessante duplicar o salário de quem lhes traz esse lucro? Pelo menos é o que se espera de emissoras sérias e de nome respeitável no mercado, como é o caso das acima citadas.

Infelizmente, seriedade não parece ser uma qualidade do poder concedente. Se aqui no Brasil esta virtude fosse obrigação, estas emissoras correriam o risco de perder uma das concessões. O funcionamento de uma rádio é uma concessão pública. E se o sistema é assim, deve dar oportunidade iguais a todos que se habilitam e estejam em condições de manter uma rádio, não só economicamente como em termos de conteúdo, tal qual prevê a Constituição.

As emissoras acima citadas, e outras que operam da mesma forma, conseguiram suas concessões em épocas em que as regras de licitação e concorrência não existiam. Basicamente era pedir autorização, comprar o equipamento e botar a rádio no ar. Mas é bom lembrar que as autorizações são renovadas pelo Congresso Nacional a cada 10 anos.

Os "tecnicistas" do setor de radiodifusão podem alegar que o sinal do AM agora sofre com as imposições da Anatel para dimunir suas potências à noite, a fim de as emissoras de maior potência dos grandes centros não prejudicar o sinal da pequenas rádios do interior de todo o país. Desta forma a programação seria levada pela FM, para melhor audição dos ouvintes locais, com melhor qualidade sonora, inclusive. Confesso que , particularmente, como ouvinte, sinto-me entristecido por tal medida impedir-me de ouvir essas estações que ficam longe de onde moro, mas reconheço que a medida é justa e protege a livre e saudável concorrência. Mas essa falta me é suprida pelas transmissões online na internet, como também se desculpariam os leigos e técnicos.

Já os "financistas", ou quem se aventura a desevendar o mercado do rádio brasileiro, baseados apenas nos frios números da realidade, alegam que os antigos ouvintes de rádio AM ascedenderam à classe média e adquiriam os novos hábitos. Não querem mais o som limitado e sem fidelidade do AM.

A nova geração dessa classe só reconhece a faixa de FM como rádio. E eles mal ouvem a frequência modulada em um rádio convecional. Já estão consumindo as ondas hertezianas por meio das transmissões online do velho rádio "stereo" analógico em seus Ipods, iphone, celulares, tablets, smartphones e o que mais a tecnologia inventar. Detalhe: não ouvem a transmissão convencional, com um receptor e um sintonizador embutido e tudo mais. Simplesmente baixam da internet um aplicativo que possibilita ouvir sua rádio pela internet. Junte-se a estas constatações, o fato de essas traquitanas eletrônicas possibilitam ao usuário a possibilidade de assistir em breve as emissoras de tv aberta digitais, videos do you tube e toda a sorte de "iguarias" audiovisuais que se pode econtrar na net.

Quando o assunto é áudio, a variedade é muito maior, tornando o rádio convencional on line apenas mais uma simples opção para ouvir música ou notícia, entre tantas outras. O rádio deixou de ser um veículo de comunicação com vida própria como era outrora e virou um mero link de áudio no seu computador. Com isso, podemos ouvir do mundo todo, como a BBC de Londres, a melhor empresa de radiodifusão do planeta. Lá ao contrário daqui, ela montou nove emissoras de rádio em FM, cada qual transmitindo uma programação diferente, com conteúdo de boa qualidade.

Mesmo assim, nada autoriza o ouvinte a concordar com essa discrepância do Grupo Estado, grupo esse que há mais de 100 anos defende os mais nobres valores desta República, sofrendo na pele a ação de ferozes algozes.

Em seu livro "Eldorado, a Rádio Cidadã", João Lara Mesquita, o líder da equipe de profissionais que tirou a Rádio Eldorado do limbo existencial e a transformou em referência no rádio brasileiro. Desde o princípio, sua preocupação era com a saúde financeira das emissoras, que nunca foi boa. Porém, ele jamais deixou de cuidar da qualidade do conteúdo, que lutou tanto para elevar e modernizar. Eles investiram na promoção de esportes que eram desprezados pelas outras emissoras, criaram diversas campanhas que fizeram renascer o espírito de cidadania dos paulistanos e os prêmios Eldorado e música, uma um marco na história do rádio brasileiro que, infelizmente, ninguém mais ousou repetir, investiram no jornalismo que marcou os 80 - com dinheiro curto e muita criatividade dos profissinais - e, claro, a programação musical que só trazia o melhor da música nacional e estrangeira - bem diferente de hoje que prioriza "rest selers" do passado, exceto pela alta qualidade de programas como "Trip Eldorado", "Empoeirado", "Conexões Urbanas", "Jazz em Ponto", entre outros que burramente sairão do ar por causa dessa "coisa" que vão fazer aí.

João Lara e toda a família Mesquita saiu do comando do grupo por conta da crise financeira que se instalara em todas as empresas. Vieram outros com outras ideias, com a visão de que jornal é produto, tem que dar lucro - ainda mais estando no vermelho, rasgam-se bom projetos, abandonam-se boas ideias, inventam-se outras menos dispendiosas e mais lucrativas.

Não estão errados os comandantes atuais. Apenas estão se adequando ao mercado, que hoje é mais cruel e voraz. Não tem jeito, tem que administrar olhando a coluna de despesas, cortar custos e funcionários, pelo menos na visão deles. O problema é que fazer jornal, fazer rádio, fazer tv não é como fazer um automóvel, uma geladeira, uma calça. Vender "conteúdo", como gostam de dizer alguns mais "moderninhos", não é como vender arroz, feijão, macarrão ou comida pronta num hipermercado. É um pouco mais complexo.

Se pode tirar algo de bom disso tudo, louva-se o fato de ao menos terem escolhido um canal de tv como a ESPN, do grupo Disney, um dos maiores do mundo. Poderia se pior e eles se aventurarem com alguma empresa picareta, que deixaria as rádios em maus lençois. Ao menos a qualidade nas transmissões esportivas estará garantida, caso o ouvinte goste de ouvir os jogos e os programas sobre futebol de futebol pelo rádio.

Agora, se o ouvinte não suporta o megaexposto ludopédio, só resta a ele sair da sintonia e apelar para a internet. Rádio com a qualidade da Eldorado, NUNCA MAIS.
Ces't la vie.

P.S.: ERREI - Por uma falha de interpretação minha o texto dá a entender que a Rádio Eldorado FM sairá do ar. Na verdade, ela será transferida para os 107, 3 MHz, que funcionará por meio de parceira entre a Fundação Brasil 2000 e o Grupo Estado. Isto não invalida a minha crítica totalmente porque além da transferência de canal, "a emissora incluirá em sua grade a programação da Eldorado e adotará o nome Eldorado Brasil 3000, em um acordo de fornecimento de conteúdo e extensão de marca", como afirma a notícia da ADNews (leia no link acima). Esta notícia ainda diz que: "A Eldorado Brasil 3000 expandirá os conteúdos da área educacional, tais como cultura, sustentabilidade, responsabilidade social e cidadania, além de ampliar a prestação de serviço e a interatividade com o uso das redes sociais em toda programação".A se confirmar tais informações, estará caracterizado que a Eldorado FM, como a conhecíamos e como a conhecemos hoje, terá chegado a seu fim como emissora e, ao fim dessa parceria, a Eldorado não terá mais onde se instalar, salvo aconteça algo ao contrário, e a marca deverá sair do mercado radiofônico. Peço desculpas se a minha análise induziu o leitor a erro. Obrigado.

Comentários

Prezado Marco Ribeiro.

Com base em seu artigo fiz postagem em meu blog, remetendo ao Rádio Base. Você levanta alguns pontos interessantes em torno da questão das atuais fusões de prefixos. Acrescentei algumas coisas. Abração,

FG
htt-://www.fg-new.blogspot.com

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