Rádio Globo informa: vem aí mais um (projeto) campeão de desespero e de despreparo

O veterano comunicador da Rádio Globo Antonio Carlos será demitido para ser substituído pelo ator da Rede Globo Otaviano Costa, segundo o colunista Léo Dias, do jornal "O Dia": troca de profissionais revela evidente despreparo dos novos dirigentes da emissora e muito desespero pela queda de audiência e faturamento (Foto: Reprodução / Montagem / Portal do Jornal "O Dia")

Certa vez, quando fui a uma entrevista de emprego no prédio da Folha de São Paulo, eu vi uma frase em um quadro pendurado em uma de suas amplas salas de reunião em que se lia algo assim: "O bom senso é a única coisa mais bem repartida do mundo". Parafraseando tão sábias palavras, eu diria que "...é a única coisa mais bem repartida do mundo, exceto no Brasil".

Esta semana o mundo radiofônico foi surpreendido com esta bizonha novidade: depois de trinta anos, o radialista Antônio Carlos vai ser demitido para ser substituído pelo ator "global" Otaviano Costa, nas manhãs da Rádio Globo do Rio. Trata-se de uma estratégia da nova diretoria do Sistema Globo de Rádio que considera a audiência da emissora "velha" e quer atrair um público supostamente "jovem"- seja lá o que isso signifique para eles - visando a migração de suas emissoras AM para o FM, sobretudo na capital paulista, onde a audiência vem caindo brutalmente nas últimas décadas.

Para isso, estão "importando" da TV Globo o máximo de atrações e artistas possíveis, como se fora a fórmula certa para afastar a crise e como se a culpa da "derrota" fosse dos profissionais radialistas que lá estão ou estiveram até pouco tempo atrás. De troco, ainda vão economizar na folha de pagamento pois, imagina-se que os colegas da televisão que também atuarem na "latinha" não receberão outro salário ou adicional para fazê-lo, como costuma ser habitual em casos semelhantes.



Vai dar certo essa tentativa bizarra de recuperar a audiência das rádios Globo? Meu primeiro impulso seria o de dizer "duvi-de-o-dó", mas a boa análise recomenda que se vá "devagar com o andor porque o santo é de barro". É muito corriqueiro, além de óbvio, que profissionais do rádio acabem migrando para a televisão, atrás de mais projeção, reconhecimento e ganhos financeiros melhores. É até o caso de alguns radialistas da TV Globo, que o SGR pretende trazer de volta ao Rádio. Entretanto, o caminho inverso é muito mais raro de acontecer e de dar certo.

Argentino de Niterói conquista o Rádio - Um dos pouquíssimos casos de que eu me lembre é o de Ricardo Boechat, vencedor de um prêmio APCA no ano passado, na categoria Rádio. Este simpático senhor começou no jornalismo impresso diário como assistente de Ibrahim Sued, folclórico e festajado colunista social do Rio de Janeiro, que acabou se aventurando na tela da Globo nos anos setenta, se tornando um dos seus mais engraçados e conhecidos personagens, sendo satirizados pelos mais talentosos humoristas da TV daquela época.

Após a morte de Sued, Boechat assumiu a sua coluna, porém com outra denominação. Ele fez seu nome ao longo de duas décadas,tornando-se um dos maiores colunistas políticos deste país. Por conta disso, recebeu o convite da própria TV Globo para atuar em seu time de articulistas. Quando fora saiu da Globo e do jornal "O Globo", do Rio de Janeiro, onde mantinha sua coluna, ele foi contratado pela Band TV para apresentar a edição local de seu principal telejornal.

Com a saída do Carlos Nascimento - outro que também começou no rádio - para o SBT, Ricardo Boechat assume seu lugar de apresentador não só no "Jornal da Band", como o de âncora no principal horário da recém-inaugurada Band News FM. Esse argentino de nascimento, com alma de carioca, criado em Niterói agradou em cheio o público "adulto" da nova rede de emissoras, que substituíra outras estações de rádio "jovens" nas mesmas posições do "dial".

Com seu jeito simples e alegre, porém sério ao tratar de assuntos tão áridos como economia e política, Boechat e seus colegas de horário - muitos deles vindo do jornalismo impresso e até da internet, têm conquistado um grande número de pessoas, em um horário em que a concorrência disputa a audiência quase que "cabeça à cabeça" no segmento jornalístico nas principais praças do país. Entretanto é bom lembrar que o âncora matinal da Band News FM teve de se adaptar à linguagem radiofônica para ser tão bem sucedido. Apesar de operar em rede, Boechat não sofre com o rigor do tempo imposto aos jornalísticos da TV, por exemplo. No Rádio, ele pode ficar mais solto, jogar um pouco de conversa fora, brincar um pouco mais, mandar e enviar recados de ouvintes e até analisar os principais fatos do dia com mais profundidade que a "telinha" quase nunca permite.

Amigas invisíveis que (quase) ninguém ouviu - Se o veterano jornalista é um exemplo raríssimo da migração da televisão para o rádio, há outras dezenas de exemplos que quase que confirmam este certo sentimento de que a nova empreitada da Rádio Globo poderá errado. O mais patente e recente deles é o do programas "Amigas Invisíveis" na própria Rádio Globo. Liderado pelo vencedor de uma das edições do "reality show" Big Brother Brasil, Jean Willis, hoje deputado federal pelo Rio de Janeiro, a atração pretendia "emular" um programa feminino vespertino da tevê, nas ondas da Globo. É claro que não deu certo porque o "público da rádio" talvez não tivesse entendido a "proposta", assim como os anunciantes. Ficou menos de um ano no ar, salvo engano.

A minha intuição, baseada em um certo inconsciente coletivo, aponta na direção de que a nova jogada do Sistema Globo de Rádio tenha tudo para dar errado porque é baseada em uma aparente falta de planejamento estratégico, no evidente despreparo de seus gestores e um claríssimo sinal de desespero por causa da queda da audiência e do faturamento. Porém, sou obrigado a deixar uma margem para a dúvida, que reside no fato de eles terem informações de que transformar a Rádio Globo numa mera versão de áudio malfeita da televisão se produzidas por pessoas que realmente saibam o que estão fazendo e que tenham enxergado algo que os melhores profissionais do mercado ainda não vislumbraram.

Ainda que conte com profissionais de tevê egressos do próprio rádio - como é o caso de muita gente na Rede Globo, é necessário saber se eles estão atualizados sobre o que ocorre neste mercado. E ainda há uma agravante: o meio radiofônico do Rio é diferente do de São Paulo para ficar apenas em dois exemplos. Enquanto as estações cariocas estão praticamente entregues a diversas denominações religiosas interessadas apenas em fazer seu proselitismo na mídia, em detrimento de desenvolver o veículo que parasitam, as "co-irmãs" paulistas tem um pouco mais de sorte. Deste lado da Via Dutra, o mercado está um pouco menos amador. A tal famigerada segmentação atingiu um estágio muito melhor do que nas décadas anteriores. Mesmo em época de crise, é possível se explorar nichos de mercados, bastando apenas adaptar a sua programação a um perfil de público que possa atrair os anunciantes que se adequem a ele. É óbvio que isto dá muito trabalho, mas quem não seguir a "Lei do Mínimo Esforço" e arrendar seu sinal 24 horas do dia para as mesmas denominações religiosas que abundam no espaço hertziano carioca, pode até conseguir algum êxito e até mesmo sobreviver com um pouco de sorte.

Mas cá entre nós, depois de tudo que foi exaustivamente explanado aqui, ainda prefiro continuar seguindo o meu "feeling" e de gente que entende mais de rádio do que eu. E se pudesse vender um conselho aos gestores do Sistema Globo de Rádio, eu simplesmente diria: "Meus amigos, esqueçam esse projeto maluco, sem pé nem cabeça, feito nas coxas. Alguma coisa me diz que isso não vai acabar bem. E não vai ser pra mim." E que o diabo seja surdo.


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Antônio Carlos é substituído por Otaviano Costa e deixa a Rádio Globo

Por Léo Dias - Portal O Dia

A partir de 16 de maio, a dona de casa vai ouvir outra voz nas manhãs da Rádio Globo. É que o querido radialista Antônio Carlos vai deixar a emissora, que colocará Otaviano Costa em seu lugar. A coluna conversou ontem à tarde com Antônio Carlos. “A diretoria da rádio chegou à conclusão de que precisa rejuvenescer os ouvintes. Então vão entrar novos locutores”, explicou.

O ‘Show do Antônio Carlos’ é líder no horário da manhã há muito anos. “Eu tenho audiência e um bom faturamento, mas isso não é suficiente. Me ofereceram para ficar aos sábado e domingos, mas eu não quero. Estou velho e gosto de ficar com a minha família no fim de semana”, disse.

Hoje, o radialista vai se reunir com a direção da Tupi —principal concorrente da Rádio Globo —para ver se acerta sua ida para lá. “Eu quero ficar, mas não sou o dono da Rádio Globo”, desabafou Antônio Carlos.

A ida do profissional para a Tupi pode salvar a emissora que anda mal das pernas e com diversos processos trabalhistas. É que a agência que faz a propaganda dos supermercados Guanabara é muito próxima a Antônio Carlos. E ele indo para a concorrência, leva o anunciante consigo. “Claro que o Guanabara vai comigo. Somos parceiros de uma vida. Mas isso não significa deixar de anunciar na Rádio Globo. Somos profissionais e queremos atingir esse público”, garantiu ele, que tem contrato até agosto com a emissora da família Marinho.

Além de Otaviano Costa, quem está cotada para ir para a Rádio Globo é Mariana Godoy, que entraria na vaga de Roberto Canázio. Tudo para conquistar jovens ouvintes.

A coluna tentou falar com o diretor da rádio, Marcelo Soares, mas ele não retornou às nossas ligações até o fechamento desta edição.

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Não existe crise?
Por Anderson Cheni, do blog do Cheni no Campo

Em outubro do ano passado, após várias demissões ocorrerem na Rádio Globo e os funcionários da  Super Tupi  recorrerem  a greve para receber os salários atrasados o comunicador foi no mínimo  infeliz ao comentar em seu programa que: "Não existe crise" e que todos tinha que arregaçar as mangas e trabalhar.

Esse comentário causou indignação do repórter e  seu companheiro Gelcio Cunha que não concordou e falou justamente do momento delicado no meio rádio (veja vídeo abaixo).

Agora por ironia do destino o comunicador foi dispensado da emissora, já que não quer com o "prêmio de consolação" que seria as manhãs de sábado e domingo. A  "troca" forçada deve ser bem vinda ao rádio carioca. A renovação da rádio Globo  está só começando e muitas outras mudanças de impacto vão ocorrer nos próximos meses. Lembrando que o canal analógico da tv em São Paulo será encerrado dia 29.

A partir dessa data esses canais serão usados para migração do rádio am em fm. Segundo planejamento do Ministérios das Comunicações a migração em São Paulo vai ocorrer no segundo semestre. Essa deve ser a estratégia das Organizações Globo, rejuvenescer a sua programação com nomes conhecidos da tv para emplacar em FM e obter novos ouvintes e patrocinadores.


Comentários

Daniel disse…
O grande problema da rede globo, como muitas empresas de rádio e TV é obter lucro, através de uma audiência a qualquer custo. E deixa de tratar com respeito os grandes profissionais que fizeram parte do crescimento da empresa.
Anônimo disse…
Caro amigo Marco Antonio Ribeiro, será que daqui pra frente o mundo radiofônico ainda irá surpreender com as barbaridades que vem acontecendo no rádio?

A crise global, roubalheira no Brasil virou motivo para tudo. "Não se contrata no rádio por causa das crise.". " Arrenda-se rádio para as igrejas, por causa das crise". Ah, falta pouco para se demitir justamente funcionários concursados das emissoras públicas também por causa das crise. Os salários dos radialistas e Jornalistas de rádio sempre foram os mais desvalorizados e mesmo assim as demissões dos nossos amigos de 20 anos de estrada estão sendo mandados embora; Cátia Tofoletto, Cristina Coghi, Benne Corrêa...

Só pra falar dos conhecidos nomes de rádio. Substituições desses profissionais tem a ver com política não com a desculpa da crise. Os globais ou artistas que viram funcionário polvo pra atuar com um dos tentáculos na TV e o outro tentáculo atuar no rádio faz parte deste teatro pra gente acreditar que o mercado esta sendo muito desfalcado pelo "alto salário desses colegas que estão sendo demitidos nas rádios comerciais".

O que se vê há muito é profissional do ramo sendo trocado por estagiário. Mas e quando os estagiários estiverem formados, vão trabalhar na rádio do Edir Macedo ou RR Soares? Estás rádios arrendadas pra igreja são as únicas que estão em expansão , já notou. O discurso pra inglês ver é que o mercado ta ruim das pernas. Mas , busque as notícias: as rádios internacionais como as italianas, alemãs, portuguesas estão demitindo quem é do ramo pra substituir por famoso? Muita coisa boa que é realizada nas rádios ninguém sabe porque o objetivo é esse mesmo , não divulgar que o rádio é o veículo mais barato dá publicidade e com pouco investimento se consegue fazer muito. Mobilização, união pra gente botar a boca no trombone e defender nosso espaço também não existe. Porque os políticos continuam donos de 2,3,4 emissoras nesse Brasílzao? ...

Ninguém sabe as regras de concessão e o poder continua nas mãos dos manipuladores que fazem do rádio mais uma indústria do desemprego. Como tudo nesse país, quando radialistas e jornalistas de radio desacreditarem desse engodo de que o rádio precisa substituir gente do ramo por artistas para aumentar audiência, a coisa começa a melhorar.vergonhoso as demissões, fechamentos e substituições dos profissionais de rádio em São Paulo, especialmente.

Miriam Ramos - idealizadora do único programa de rádio que recebe escolas e estudantes de 16 anos para tratarem do futuro profissional. Programa Abrace uma Carreira . A âncora apresenta toda quinta às 13h uma profissão diferente na rádio USP 93,7