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sábado, 26 de outubro de 2019

Crônica - A Vitória do Quadrúpede


Fernando Jorge*

No ano de 1955, o eleitorado de Jaboatão, em Pernambuco, elegeu vereador um bode. O animal chamava-se Cheiroso e teve 460 votos, o dobro do que necessitava um cidadão daquele município para se eleger seu representante. Três anos depois, candidato à Câmara dos Vereadores de São Paulo, o rinoceronte Cacareco foi o mais votado. Em seguida, decorridos vários anos, o macaco Tião, do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, teve a sua candidatura fictícia lançada pelo também fictício PBB (Partido Bananista Brasileiro). E há pouco tempo, no Balneário Camboriú, de Santa Catarina, um cachorro de rua, o Sorriso, tornou-se candidato a deputado. O seu comitê de propaganda era dirigido pelo jornalista Nagel de Mello...

O eleitor desses lugares, bastante desiludido com a política, fez bem em votar num bode, num rinoceronte, num macaco e num cachorro. Votos do protesto, da revolta.

É melhor eleger um bode do que certos cidadãos da nossa infeliz República. Lá no Nordeste o sertanejo costuma dizer: “Deus te dê o que deu ao bode: catinga, barba e bigode.”

Mas é mil vezes preferível o fedor do bode, a sua catinga, do que o cheiro nauseabundo da alma dos nossos políticos corruptos. Um esgoto furado não fede tanto como a alma podre desses canalhas.
É preferível votar num rinoceronte do que em certos fulanos da nossa infeliz República, porque ele, o rinoceronte, mamífero de pele espessa e dura, não sabe roubar. Só sabe roncar e comer capim. Além ser muito perigoso, esse bicho nunca meteu as suas patas no orçamento federal e o lesou.

É preferível votar num macaco do que em certos sujeitos da nossa infeliz República, porque o macaco, se sabe brincar, guinchar, pular de galho em galho, comer banana, fazer caretas, por outro lado não sabe trair, mentir e apoderar-se do dinheiro público, a fim de o esconder nos bancos da Suíça e nos paraísos fiscais. Viva pois o macaco e as suas macaquices! 

Abaixo o político corrupto e as suas canalhices! É preferível votar num cachorro do que em certos políticos cachorros da nossa infeliz Republica, porque ele, o cachorro, como disse Victor Hugo, é “a virtude transformada em animal”, e o político corrupto é a podridão mais asquerosa transformada em gente. Aliás, chamar um desses crápulas de cachorro equivale a xingar os cães.

A safadeza de dezenas dos nossos políticos gerou estas palavras de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Quando o povo decidiu votar nos animais evocados neste bate-papo, pelo menos não apoiou os patifes que ganharam milhões com obras superfaturadas. Juro, amigo leitor, prefiro ouvir os berros do bode, os bramidos do rinoceronte, os assobios do macaco, os uivos do cachorro, do que as palavras cínicas dos nossos políticos salafrários, exímios na arte de mentir, de enganar, de roubar, de afivelar no rosto a máscara da hipocrisia.

Os fariseus da política brasileira falam como moralistas e agem como ladrões. Se exibissem no rosto as suas verdadeiras naturezas - a imundice de suas almas - os nossos estômagos ficariam embrulhados, vomitaríamos de nojo.
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*Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont, lançado pela HaperCollins.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Monte uma rádio pirata na panela de pressão

por Rubens Leme da Costa
do blog Schopenhauer Perde


Na tediosa noite de Ribeirão Preto à caça de uma rádio que tocasse alguma música que prestasse, comecei a virar o dial quando ouvi um barulho estranho: voz baixa, sinal idem e duas canções de Raul Seixas - "Mosca Na Sopa e "Mamãe eu não queria (servir o Exército)". Não bastasse serem duas músicas proibidas pela censura militar o locutor tinha uma voz de adolescente e dava boa-noite dizendo que a Rádio Tal voltaria amanhã. "Meu Deus", estremeci, "uma rádio pirata!"

No dia seguinte, haveria a aula de literatura e precisávamos levar uma notícia qualquer e apresentá-la aos demais. Quando contei, ninguém acreditou. E aquilo me marcou.

Passa-se um tempo e comentei com o Adriano o acontecido. Não sei como, mas ele tinha um folheto ou revista falando exatamente do assunto. E não era só. Existia um manual que ensinava a montar vários tipos de rádios piratas, inclusive em uma panela de pressão!

A coisa era o seguinte: você comprava os equipamentos, montava tudo e com a panela você ia se deslocando para atingir novos lugares. Segundo o folheto, a potência dava para cobrir um raio de 100 ou 150 metros. Eles explicavam que era bom você trocar sempre de lugar para não ser rastreado e, eventualmente, preso.

Claro que era um absurdo, mas eu perguntei pro Adriano porque não comprávamos o tal kit de montagem. "Rubinho, a gente manda o dinheiro numa carta e nunca mais o verá". "Ah, vamos arriscar". E arriscamos.

Semanas depois, Adriano me liga eufórico dizendo que o kit havia chegado. Oba! E agora?

Ficamos ansioso e começamos a conversar, imaginando quais seriam nossos próximos passos...

"Mas Rubinho, precisamos de uma panela de pressão!"
"Eu sei, Adriano. Pegamos da sua mãe ou da minha?"

Como dona Helena era mais mansa, optamos por sequestrar a panela de minha mãe. "Então, teremos que fazer em casa."

Fomos até minha casa, passei pela cozinha, sumi com a dita e entramos no meu quarto. Quando abrimos o pacote, uma decepção: tudo era complicado e não tínhamos equipamento específicos como um soldador, chaves, além de nenhum conhecimento de eletrônica.

Enquanto confabulávamos o que fazer - chamar um conhecido que manjava de rádios era a melhor opção -, alguém entra no meu quarto.

"Rubinho, meu filho, o que você está fazendo com minha panela de pressão?"
"Ah, oi mãe. É... uma experiência, mãe."
"Que experiência?"
"Estamos montando uma rádio pirata..." (Adriano quase se enfiou embaixo da cama envergonhado... "cala a boca, Rubinho!")
"Uma, o quê?"
"Uma rádio, mãe!"
"Uma rádio? Como assim, uma rádio? Do que você está falando?
"Oras, mãe to falando de uma rádio!" (Adriano quase se joga da janela...)
"Rubinho, você tá tirando uma comigo?'"
"Não, mãe, to falando sério".
A essa altura nem eu conseguia mais ficar sério perante tal diálogo absurdo. Mas ela prosseguiu...
"Tá bom. Vamos dizer que eu acredito que vai montar uma rádio com uma panela de pressão. E ela vai funciona como, com gás?"
"Não, mãe, ligo na tomada!"
Minha mãe apenas olha pra mim com uma cara de riso...
"Sei... você liga a panela na tomada... ô, meu filho, você andou bebendo novamente?"
"Não, mãe! Que coisa!"

E com aquele ar de quem não estava querendo explicação alguma, já que seria impossível entender o que eu falava, minha mãe apenas pegou a panela e a levou para a cozinha.

E minha vida de DJ, que mal havia começado, terminou...

Ah, sim... o Adriano permanece vivo...