sábado, 23 de fevereiro de 2008

Os Narradores Esportivos do Rádio

Por Edemar Annuseck
do site Caros Ouvintes


O relógio marca..., abrem-se as cortinas começa o espetáculo, ripa na chulipa, pimba na gorduchinha, bola no barbante de Ado, respeitável público, tremulando, tremulando, tremulando as bandeiras, dez é a camisa dele, indivíduo competente o Zico, passa de passagem, Placar na Suécia, um a zero, o Brasil vence.

Frases famosas criadas pelos narradores brasileiros Waldir Amaral, Fiori Giglioti, Osmar Santos, Willy Gonser, Geraldo José de Almeida, Jorge Curi, Edson Leite, nos últimos cinqüenta anos.

Identificação

Elas identificavam os narradores por décadas, no rádio esportivo brasileiro. Era gostoso ouvir Waldir Amaral falar após cada gol : “tem peixe na rede do Vasco”, ou “o relógio marca”.

Jorge Curi com seu vozeirão anunciando o placar do jogo “no P...E (placar eletrônico) do Maraca” ou “passa de passagem”.

Willy Gonser com o seu “tem bola no barbante de Ado”, Osmar Santos gritando “chiruliruli-chirulirulá”.

Oswaldo Moreira, da Tupi do Rio (já falecido) falando “respeitável público”. Fiori Giglioti quando ao apito do árbitro : “abrem-se as cortinas e começo o espetáculo”. Eram marcas registradas desses grandes narradores.

Como surgia

Muitos profissionais contratavam publicitários, tinham colaboradores e amigos, para criar frases.

Lembro de Antonio Garini, editor-chefe do Jornal da Manhã da Jovem Pan, grande incentivador de Osmar Santos, sempre tinha sugestões. César, jogador do Palmeiras e Estevan Sangirardi também colaboravam. As frases de efeito deram impulso à carreira de Osmar Santos, interrompida na noite de 22 de Dezembro de 1994.

De 1973 a 1977 dividia as transmissões esportivas da Jovem Pan com o Osmar.
No início da carreira, Osmar, espelhou-se em consagrados profissionais como Pedro Luis, Edson Leite, Geraldo José de Almeida, Fiori Giglioti, Haroldo Fernandes, Joseval Peixoto e outros. Aos poucos foi criando seu próprio estilo.

Infelizmente Osmar Santos já não pode mais ser ouvido nas narrações esportivas.
Mas o Brasil recheou-se de “carbonos” de Osmar Santos; suas frases e seu estilo de narrar futebol foram copiados pelos quatro cantos do país. Aliás, não só ele; também Fiori Giglioti é xerocado por algumas dezenas de locutores brasileiros. E antes de Osmar e Fiori, o extraordinário Pedro Luis. Lá por 1973 quando o Pedro Luis começou a ter problemas com a voz, aparecia Marco Antonio Matos, seu espelho, cópia fiel do grande mestre. Pedro teve outros seguidores como Mário Garcia, Wanderlei Ribeiro, Hamilton Galhano no rádio de São Paulo.

Nos estados em que se ouve o futebol do Rio, José Carlos Araújo tem clones e mais clones. O rádio esportivo brasileiro sempre teve muitas cópias; não é grande o número de narradores de ponta, com estilo próprio.

Criatividade

A narração esportiva brasileira pode ser analisada por regiões.

No sul, o futebol da Guaíba foi reconhecido a partir da Copa de 1966 na Inglaterra pelo som e transmissões emocionantes de Pedro Carneiro Pereira. Depois de sua morte em 1973, Armindo Antonio Ranzolin tomou o comando do futebol. No Rio Grande do Sul surgiram muitas cópias de Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antonio Ranzolin.

Haroldo de Souza contratado em 1973 pela Gaúcha inovou no rádio dos pampas misturando o estilo gaúcho com a modernidade de Osmar Santos. No Paraná depois de Willy Gonser e Airton Cordeiro, surgiu Himer Lombardi que virou Lombardi Junior.

Esteve conosco durante alguns meses em 1974, na Jovem Pan.

Em Curitiba tornou-se o grande nome do rádio esportivo de 1975 a 1994, quando veio a falecer. Inovou utilizando frases e vinhetas da Jovem Pan.

O estilo das transmissões dos grandes narradores paulistanos de outrora se espalharam pelo interior do estado e norte do Paraná. O carioca invadiu Brasília, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Manaus e outros estados do norte e nordeste.

Um detalhe interessante; 90% dos narradores esportivos das grandes rádios de São Paulo vieram do interior ou de outros estados brasileiros para se consagrar na maior cidade da América do Sul.

O que é ser narrador esportivo

O narrador esportivo é um “vendedor de ilusões”. Cabe ao narrador esportivo descrever o que ocorre num jogo de futebol, com precisão, e, detalhes.

Ao contrário dos locutores esportivos que estão mais preocupados com vinhetas, abraços, piadas, reverberações exageradas, pornografia e poesias.

Sou fã dos narradores que me fazem “ver o jogo” sem estar no estádio ou na frente da tevê. Narrador esportivo descreve os lances de uma partida de futebol mostrando quem está com a bola, para quem foi passada, qual a posição em que o lance ocorreu, não esquecendo do placar e tempo de jogo. Essa é a função do narrador; as dúvidas ocorridas no desfecho de um lance devem ser esclarecidas pelo repórter colocado atrás do gol ou na lateral do gramado. Ao comentarista cabe comentar o jogo. Hoje poucos descrevem o jogo; preferem interferir na seara do comentarista, dando sua opinião e esquecendo-se de narrar. Alguns pela rapidez que querem dar a transmissão engolem palavras; outros narram na base do - cruzou o zagueiro, cortou o zagueiro, defendeu o goleirão. Quem cruzou. De onde cruzou. Para onde cruzou. Quem cortou. Como é o nome do goleiro. Não dá nome aos atletas. Algumas transmissões são completamente lineares; cobrança do tiro de meta e jogada que se estende até a linha intermediária (entre meio de campo e grande área adversária) deve ser narrado com um tom mais coloquial; um chute a gol ou jogadas que se sucedem dentro das áreas devem conter a vibração que o futebol exige. Hoje em cada 10 narradores, cinco gritam aos quatro ventos “ pro gooooollllll.... para fora”. É uma forma de aumentar a emoção de uma jogada de ataque. Porém 95% desses lances não resultam em absolutamente nada. Pura enganação. E você ainda ouve os surrados - a bola passa raspando a trave, tirando tinta do poste – (a tevê mostra que passou dois metros do poste) ou – balão de couro – (a bola de hoje é fabricada com material sintético e balão é outra coisa), ou ainda – um escanteio de mangas curtas -. E tem aquela do – estamos no intervalo do primeiro para o segundo tempo -. Um jogo de futebol tem apenas um intervalo, logo...

Um pedido

Vou completar 44 anos no jornalismo esportivo em Abril; não quero com este comentário ensinar a ninguém o “pai nosso”, mas, gostaria que os jovens, os que estão ingressando nesta profissão levem isso como uma colaboração de quem também cometeu muitos erros. Escrevo a título de colaboração para que os futuros narradores sejam realmente narradores, que o rádio seja sério, moderno, informativo, prestador de serviço, feito com muito amor, sem palavrões e pornografia.

Não estou me despedindo, muito pelo contrário, estou iniciando uma nova fase nesta profissão de 4 décadas, pelos meus cálculos com mais de seis mil transmissões esportivas -. O rádio precisa resgatar qualidade e dignidade, que muitos jogaram na lata de lixo. Chega de baixaria, chega de terceirização, chega de incompetência. O rádio precisa dar um basta a tudo isso.

A falta de qualidade do rádio de hoje contribui decisivamente para a queda de sua audiência e por extensão diminuição das verbas publicitárias. Dêem qualidade ao rádio e tenham a certeza que a audiência voltará a crescer e as verbas publicitárias voltarão naturalmente.

Para tudo há uma solução, menos para a morte.

Até a próxima.

8 comentários:

Marcos Lauro disse...

Acabei de ler a biografia do Osmar Santos (bem) escrita pelo Paulo Matiussi. Coincidentemente, quando fui assistir ao jogo Juventus e Barueri, vi o Osmar antes de entrar no estádio.

A força de vontade desse homem é lição para qualquer um. Nâo tem nem muito o que dizer e comentar. Só desejar boa sorte e torcer.

crystyano disse...

por favor prestem atenção nesse apelo quero ser narrador de futebol muitos amigos meus me elogiam quando estou narrando partidas na varsia de são vicente sp primeira cidade do brasil
sou apaixonado por futebol e adimiro muito narradores principalmente os radialistas por que acho que através deles podemos centir uma emoção especial e muito diferente de quando vemos um jogo pela tv josé silvério,ulícis costa são algums dos meus preferidos por favor se estiver lendo esse recado pesso por favor que me ajude há realizar esse sonho sou CRISTIANO TAVARES de SÃO VICENTE sp moro na CIDADE NAÚTICA av. CASTELO BRANCO n. 1317 TEL.9706-08-27 MUITO OBRIGADO POR SUA ATENÇÃO OBS. não vou decepicionar se estiver desposto há mi ajudar OBRIGADO.

blog do Fernando de Lélis disse...

Parabens Rodney,estou no radio a 12 anos atualmente em Sao joao Nepomuceno interior de Minas Gerais proximo a Juiz de Fora.Vou tirar muitos exemplos de tudo que voce publicou.,Um abraço Fernando de lelis da Radio Difusora am.

Jonas disse...

Muito legal, isto sim é um aula de como deve-se portar um Narrador, com certeza vou aproveitar muito este seu trabalho e buscar cada vez mais o aprimoramento do meu trabalho como Narrador esportivo.

Anônimo disse...

Edson Leite foi o maior narrador esporivo da década de 50 e 60. Uma voz inconfundível e tinha uma narração emocionante.Vivia-se o espetáculo na sua voz.

Anônimo disse...

Vale a pena lembrar do Mário Savaget, ex-narrador do Gigante do Ar (Rádio Inconfidência), Rádio Itatiaia, Guarani, Capital, Cultura e tantas outras do interior de Minas Gerais. Não sei o atual paradeiro dele, mas era um narrador, de todos que ouvi muito bom, muito rápido e técnico e ao mesmo tempo, cheio de emoção. Criador de vários jargões do rádio, como "alegria do meu povo", "sufoca", etc é mais um dos grandes do rádio AM.

TIO JESUS DO NAIR VALLADARES disse...

estou de olho nas ràdios do rio de Janeiro

Dirceu Plenamente disse...

Sou narrador esportivo no interior do estado de São Paulo. Sempre fui fã das narrações de Edemar Annuseck. Temos ótimos narradores, mas gostaria de comentar o seguinte: É fácil narrar um jogo do Corinthians x Flamengo num Pacaembú ou na Arena lotados. Ou então, Palmeiras x Santos, São paulo e Grêmio.... a torcida ajuda o narrador. Dá uma plástica à transmissão. É como cantar ¨o menino da porteira¨ regido pela Orquestra Sinfônica. Tudo muito bonito. Os grandes narradores se superam. Agora, quero aplaudir os narradores anônimos que transmitem Taquaritinga e Catanduvense, com 12 espectadores no estádio. Ou Jabaquara e Mauaense, numa tarde fria e sem ninguém como testemunha. Estes sim, tem que serem muito bons para dar vida ao ¨espetáculo¨. E sempre conseguem. Parabéns, anônimos. VOcês também são grandes profissionais, assim como aqueles que ouvimos e que estão sempre numa cabina própria para grandes espetáculos.