Há 25 anos entrava no ar a “Chuvisco Television”



É muito lugar comum dizer que me lembro “como se fosse ontem”. Mas foi mesmo. Era dia 20 de outubro de 1990, um sábado nublado, meio preguiçoso. Aproveitei que o pessoal lá de casa iria a São Caetano fazer a “compra do mês” em um hipermercado local e dei uma escapada até uma loja de traquitanas eletrônicas do centro e comprei a famigerada “antena aro de anjo” para pode assistir à grande novidade televisiva daqueles tempos “coloridos”, recessivos e tristes: a estreia da Music Television brasileira.


Até então, no imaginário da audiência tupiniquim, a MTV – assim como a CNN – era uma emissora mágica em que só se passavam videoclipes o dia inteiro. Em um país em que a tevê ainda era aberta e generalista, isso parecia impossível até de se imaginar. Meses antes surgira em um mural da faculdade um aviso de seleção de estudantes de rádio, tevê, publicidade e jornalismo para estagiar naquela que seria a primeira emissora segmentada no público jovem do Brasil. Eu me “auto” desclassifiquei logo de cara porque achava que nem teria chance. Afinal, mal falava inglês, exigido pela nova emissora. Arrependo-me até hoje de não ter tentado. Quem sabe não conseguiria? Mas agora já foi.

Enfim, a hora havia chegado. Meio-dia em ponto. Chego em casa, ligo a tal antena em meu aparelho Philips de 14 polegadas – já com entrada para UHF – e.... entra no ar a CTV – “Chuvisco Television”. Minha revolta foi grande, uma vez que apesar de ser uma faixa nova de recepção, já recebia o sinal da TV São Caetano em alto e bom som. Pudera, podia enxergar a antena daquela emissora da janela do meu quarto. 

Infelizmente não era o caso da MTV, a duas dezenas de quilômetros de distância da minha janela. E o pior: o seu sinal teria que viajar pelo planalto irregular de 
Piratininga, cheio de barreiras arquitetônicas, até chegar até ao meu receptor analógico. É engraçado pensar em recepção analógica de tevê, uma vez que a MTV se orgulhava em trabalhar em sistema digital, tudo em fita, mas digital. Isso pouco importava. A “CTV” transmitia em sinal analógico mesmo.  

O meu consolo é que pouca gente na “facu” havia acompanhado os primeiros dias da emissora da editora Abril. Somente lá pelo mês de dezembro, perto do Natal, depois de instalar uma antena externa de VHF, é que pude finalmente ver a MTV, com uma qualidade um tanto precária. O canal 32 era totalmente digital, mas a transmissão, não. Para ser sincero, só fora ver o novo canal com qualidade de imagem quando trabalhei em uma produtora na Rua Cardoso de Almeida, em Perdizes, próximo ao estádio do Pacaembu. Do quintal da casa onde trabalhava, era possível vislumbrar algumas antenas instaladas em torres erguidas ali perto, no Sumaré: a da TV Cultura – para mim, a torre mais bonita até hoje -, a da extinta TV Manchete, a do SBT e a da MTV. Lembro-me de ter gravado algumas boas reportagens, principalmente sobre rádio, que a “Music Television” de vez em quase nunca fazia. 

Em seu primeiro ano, a MTV tinha uma programação parecida com uma rádio FM convencional de então. Clipe o dia todo, separado em horários destinados a determinados gêneros musicais. No fim do dia, o famigerado “hit parade”, geralmente com clipes de bandas que a audiência roqueira e alternativa – ou algo próximo disso – odiava de coração. Hoje vejo que não tinha nada de mais. Era apenas música que outros tipos de telespectadores. Afinal, como havia profetizado a banda “Os Mulheres Negras”, em um LP lançado no ano anterior, “Nosso objetivo é fazer música pop / E quem sabe algum dia / Ficar rico e xarope”. Sem trocadilhos, eram tempos bicudos e difíceis. Alguma identificação com a era atual?

O único programa que a galera confessava assistir era o “Rockstória”, com clipes quase pré-históricos de rock, que ia ao ar sempre no fim da noite, quando os universitários chegavam a seus lares. Com o tempo, a emissora foi entendendo que precisava atender à essa audiência mais contestadora, ávida por novidades e que não queria apenas o lugar comum. 

Há muito que se falar sobre o que foi a MTV. Zico Góes, ex-diretor da emissora, já escreveu um revelador livro sobre isso. É um assunto que gera dezenas de outras publicações, apenas falando do ponto de vista de quem a assistia ou dela participava como artista, músico, etc. A MTV que agora está no ar é outra emissora. Tem muito pouco a ver com a “emetevê” – como diriam Caetano Veloso e o professor Pasquale Cipro Neto – em sua versão genuinamente brasileira. Esta, por sua vez, saiu do ar porque novos tempos vieram e a forma de se consumir tevê mudou. 

É contraditório, mas é fato. A inovadora MTV “brazuca” fechou as portas simplesmente porque ficara obsoleta e anacrônica. No mundo da comunicação é assim. Os veículos nascem, crescem, cativam ouvintes e telespectadores, agonizam e morrem. Incomum é quando eles ficam anos a fio transmitindo seu conteúdo, sobrevivendo às mudanças do mercado.

Com a MTV não foi diferente. O modelo tão revolucionário que implantaram não resistiu à baixa audiência e o consequente desinteresse dos anunciantes. Quando a emissora musical saiu do ar em 2013, a Abril colocou em seu lugar a Ideal TV, canal especializado em negócios e carreiras. Sem dúvida alguma, era uma emissora de boa qualidade em termos de conteúdo. Porém, sua proprietária limitou-se a colocar reprises de uma antiga versão desta emissora. É óbvio que não duraria muito. Penso eu que, se tivessem investido e atualizado o conteúdo, a Ideal TV teria dado certo. Talvez não em sinal aberto, mas quem sabe em uma tevê por assinatura? Público não faltaria, apesar de não ser numeroso. Sendo um veículo altamente qualificado, certamente atrairia anunciantes de peso, que gostariam de agregar sua marca a uma tevê de prestígio. Mas a editora Abril não entendeu assim e preferiu arrendar todos horários para uma seita evangélica. 

Da antiga “emetevê” só nos resta agora a saudade e milhares de horas de gravação de várias atrações da falecida emissora, espalhadas por centenas de servidores de vídeo da internet. E o futuro apenas chegou.

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