César Lacerda apresenta "Paralelos & Infinitos”, seu segundo álbum

Nascido em Diamantina (MG) e radicado por oito anos no Rio de Janeiro, Lacerda jamais perdeu seu DNA mineiro, bem como jamais deixou de externar sua vontade em expandi-lo e se tornar universal (Foto:Daryan Dornelles/Divulgação)
Ter o amor como tema pode parecer, num primeiro momento, algo corriqueiro e banal. O lugar-comum. Entretanto, o que acontece quando um artista decide converter essa matéria-prima em um elemento instável, de alto risco? E ainda, optar por uma abordagem leve e sintética? Foi esse o caminho que César Lacerda escolheu para o seu novo disco, Paralelos & Infinitos (Joia Moderna).
E há algo de revolucionário nessa escolha. Afinal, em um momento de tanta hostilidade e descrença, nada mais radical para um artista do que abrigar em sua obra o afeto. Lacerda, como grande músico que é, sempre soube fazer isso de forma singular, exibindo, desde seu primeiro disco, Porquê da Voz (2013, independente), uma identidade luminosa, sensível e inventiva.

Nascido em Diamantina (MG) e radicado por oito anos no Rio de Janeiro, Lacerda jamais perdeu seu DNA mineiro, bem como jamais deixou de externar sua vontade em expandi-lo e se tornar universal. O que seria para muitos uma ideia conflituosa, para ele foi um poderoso impulso que o permitiu se abrir a vários diálogos. Algo que pode ser comprovado nos projetos em que vem se envolvendo desde o lançamento de seu álbum de estreia, há dois anos. Nesse período, o músico trabalhou ao lado de nomes de diversas cenas e gerações: Lenine, Marcos Suzano, Emicida, Paulinho Moska, Fernando Temporão, Letícia Novaes (Letuce), Juçara Marçal, o poeta Eucanaã Ferraz, o ator Matheus Nachtergaele, entre outros. Também esteve presente nos EPs Instantâneos (2014, Dobra) e Banquete (2014, Banda Desenhada Records); no tributo aos Novos Baianos, Tinindo e Trincando (2014, Jardim Elétrico); e na coletânea Mar Azul (2015, Slap – Som Livre), em homenagem ao Clube da Esquina. 

Por conta de seu trabalho, o músico se apresentou em diversas casas de show do país, como os SESC’s Vila Mariana (SP), Palladium (BH) e Tijuca (RJ), Oi Futuro (RJ) e Teatro Paiol (PA), além de ter realizado turnês por vários países, como Uruguai, Cuba, Portugal, Holanda, Alemanha e Itália. Toda essa experiência, tanto musical quanto pessoal, foi muito importante para a gestação de Paralelos & Infinitos. Lançado em um momento de transição, quando Lacerda decide mudar-se para a cidade de São Paulo, o disco trata, exclusivamente, de um relacionamento amoroso. 

Abordando os aspectos mais resplandecentes dessa relação, o artista desfruta dessa felicidade (perene ou efêmera, não importa) revolvendo-a, criando uma paisagem que, ao invés de revelar fissuras, mostra seu núcleo duro, explendoroso e brilhante. Ainda que efusivo, Paralelos & Infinitos se apresenta como um trabalho íntimo, delicado e confessional. Seu título foi retirado do livro Amor em segunda mão (2006) da escritora portuguesa Patrícia Reis. A expressão é usada pela autora para designar a linha do horizonte, o encontro do mar com o céu, uma metáfora à relação a dois.

Na capa e contracapa do disco, Lacerda e sua namorada, a atriz Victoria Vasconcelos, aparecem em um ambiente ao mesmo tempo aquático e cósmico, remetendo a Joia (1975), de Caetano Veloso; e a Histoire de Melody Nelson (1971), de Serge Gainsbourg. Esse clima familiar e cúmplice se estende ao longo de todo o álbum. Nele, Lacerda gravou a maioria dos instrumentos e vozes, contanto com colaborações pontuais, dentre elas, a própria Victoria, Cícero, Mahmundi, Lucas Vasconcellos (Letuce) e Pedro Carneiro, este último, também produtor do disco.

Esteticamente, Lacerda promoveu em Paralelos & Infinitos uma fusão de influências que lhe são bastante caras: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Grizzly Bear e, mais fortemente, DM Stith. Assim, é possível observar tanto um preciosismo notoriamente ligado ao som de Minas quanto a pesquisa timbrística e uma ambiência que remetem aos artistas contemporâneos da cena indie folk norte-americana. 

Essa referência fica clara logo na primeira faixa: “Algo a dois” (César Lacerda) é uma canção pop e solar onde se destaca o coro e a bateria sem firulas. Na seguinte, a balada “Touro indomável” (César Lacerda/Francisco Vervloet), o músico se aventura corajosamente no falsete, criando um ambiente quase onírico. A próxima faixa, “21” (César Lacerda), é uma cantiga onde o autor, ao seu modo, dá uma resposta a Caetano Veloso e à sua composição “Tudo dói”. Destacam-se os violinos de Conrado Kempers, da banda carioca Dos Cafundós. De temática existencial, a quarta música, “Olhos” (César Lacerda/Luiz Rocha) discorre sobre os contratempos do cotidiano e da descoberta do amor. Nela, há a participação de Lucas Vasconcellos (guitarra e sintetizador) e Conrado Kempers (sarodi). 

Em “Gurajuba” (César Lacerda), o músico divide os vocais com Victoria. É uma canção que tanto flerta com a música regional quanto o bluegrass norte-americano. O título é uma referência à Praia de Guarajuba, na Bahia, onde Lacerda a compôs. Há nessa faixa a participação especial de João Machala (trombones) e Rafael Mandacaru Orlandi (guitarra), integrantes da banda mineira Iconilli. A canção seguinte é a que dá nome ao disco, “Paralelos & Infinitos” (César Lacerda), e conta com a participação de Mahmundi na bateria eletrônica. A música aborda o aparecimento da palavra “amor” no discurso amoroso. Na seguinte, “Love is” (César Lacerda), o músico flerta com elementos mais experimentais, numa sonoridade que, de certa forma, se contrapõem à fragilidade e à delicadeza da letra. A faixa foi inspirada no filme Sonhando Acordado, de Michel Gondry, com trilha sonora de Jean-Michel Bernard; e conta com a participação de Cícero (órgão). “Quiseste expor teu corpo a nu” (César Lacerda) encerra o álbum de forma contundente. Com um arranjo de voz complexo, a música se apresenta praticamente nua de instrumentos. 

Numa espécie de autocrítica, Lacerda finaliza sua narrativa amorosa com um olhar bastante maduro, mas sem jamais deixar de lado a suavidade que tanto permeia Paralelos & Infinitos.

Márcio Bulk | Agosto 2015
Márcio Bulk é pesquisador musical, letrista e editor do site Banda Desenhada. 

www.cesarlacerda.com
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